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sexta-feira, 1 de abril de 2011

It's All True 2011

Apesar da falta de salas de cinema no país acontece em São Paulo e no Rio de Janeiro de 31 de março á 10 de Abril o Décimo Sexto Festival de Documentários É Tudo Verdade (It's All True), teve na sessão de abertura o filme 'The Black Power Mixtape' de Göran Huho Olsson.


The Black Power Mixtape
Um tesouro em 16 mm, filmado pela televisão sueca, acompanhando o auge do Movimento Negro nos EUA entre os anos 60 e 70 e que ficou em arquivo por 30 anos é a base deste documentário. Figuras-chave como Martin Luther King, Stokely Carmichael, Bobby Seale, Eldridge Cleaver, Huey P. Newton, Angela Davis e outros povoam estas imagens, comentadas no filme por diferentes gerações – como a própria Angela Davis, Harry Belafonte, Sonia Sanchez, Erykah Badu, Talib Kweili e John Forte. Ao mesmo tempo que se reexamina capítulos cruciais da luta pelos direitos civis, as manifestações pela não-violência de Luther King e a postura mais incisiva dos Panteras Negras, os observadores de hoje procuram fazer um balanço da importância, dos efeitos e das decepções de um rico momento social, político e cultural captado por um olhar externo.
www.itsalltrue.com.br/

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Cânhamo: primeira parte


O cânhamo está na ordem do dia. Os últimos anos transformaram rapidamente a idéia de uma moderna indústria do cânhamo de fantasia em realidade. A presença física de tecido, papel, materiais de construção e produtos de óleo de sementes do cânhamo produziu enorme impacto no imaginário social. Talvez, mais ainda que a informação sobre a importância da planta no passado, essa tenha sido a semente da revitalização do cânhamo.
Desde a década de 1930 tem havido um esforço para doutrinar as pessoas, impondo-lhes a crença de que o cânhamo não passa de uma praga maligna “com raízes no inferno”, mas quando lhes mostram uma camisa que parece linho e dizem que é feita do caule da mesma planta que produz a maconha, uma profunda alteração de consciência tem início. Sobrevém a compreensão de que o cânhamo não é uma “droga” mortal, mas simplesmente uma planta possuidora de uma longa e notável história de serviços à humanidade.
É significativo que essa consciência esteja florescendo quando ainda vive uma geração que se lembra das primeiras décadas do século XX, época em que o cânhamo era cultivado nas terras da família, uma geração que conhece a textura e o sabor de um velho conhecido, quando o sentem ou o experimentam. Os plantadores do cânhamo dos velhos tempos e seus filhos ainda estão por aí para atestar a existência e o valor do cânhamo industrial.

(Henry Ford e o carro feito com a resistente fibra de cânhamo em 1941)

Foi só uma questão de tempo antes que os empresários de diversos países passassem a importar produtos feitos de cânhamo. Nos Estados Unidos, onde esse movimento teve muita força, os únicos produtos do cânhamo disponíveis em meados de 1987 eram cordão húngaro, alguns papéis especiais como papéis para cigarros e sementes esterilizadas para pássaros. No Brasil, nem mesmo esse material encontra-se disponível na atualidade. Em 1989, um grupo chamado Business Alliance for Commerce in Hemp (BACH) descobriu e publicou normas referentes á importação do cânhamo pela Alfandega dos Estados Unidos, que excluem especialmente o caule e a semente esterilizada, tornando legal o comércio desses itens importados. Em meados de 1989, a organização já havia produzido vários textos incentivando empresários do cânhamo a se lançar nos negócios e dando-lhes as ferramentas para tanto. A educação teve uma grande importância na estrategia de marketing inicial, e panfletos da BACH, como “Os muitos usos do cânhamo”, foram distribuídos por toda parte por seus representantes. O foco recaía sobre as vantagens ambientais e econômicas do uso do cânhamo na produção de fibra, alimento e combustível.
O Grande Livro da Cannabis

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Das Políticas Públicas

Foto: Marcia Foletto

“A loucura pública é a mesma. Comprado, o cidadão vota em troca dos espólios, pelo que quer que tenha o som de ouro. São corruptos, o Senado é corrupto, seus favores colocados à venda. Até homens velhos decaem em sua liberdade e virtude; o poder muda de mão por onde passa o ouro, e sua grandeza dourada jaz podre no pó.”
“ Ademais, o povo afunda no duplo lodaçal da horrenda usura e dos débitos devoradores. Não há um lar a salvo, nenhuma alma livre de hipoteca; a lenta decadência medra em silêncio no coração, e logo se alastra impiedosa pelos membros em grande alarido. Os romanos recorrem às armas, como desesperados, e procuram agora, nas feridas abertas, os bens que dissiparam na luxúria. Imersa nessa torpeza, nesse sono doente, que remédio poderia despertar Roma, senão o terror, a guerra e o aço lascivo?” 
(Petrônio)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Propaganda racista, conspiração e cannabis

Um artigo incompetente que associava maconha, crime e insanidade foi publicado no Journal of Criminal Law and Criminology em 1932, passando a ser frequentemente citado a partir de então como um estudo definitivo. Os autores, L.E. Bowery, um policial de Whichita, no Kansas, e M.A. Hayes, afirmaram que o usuário de maconha é capaz de:

“grandes proezas de força e resistência, durante as quais nenhuma fadiga é sentida... Os desejos sexuais são estimulados e podem conduzir a atos antinaturais, como exibição indecente e estupro... (O uso da maconha) termina na destruição dos tecidos e centros nervosos do cérebro, e produz danos irreparáveis. Se prolongado, o resultado inegável é a insanidade, qualificada por aqueles que a conhecem como absolutamente incurável, e culminando, sem exceção na morte.”

Embora os promotores da moral costumassem proclamar que a maconha gera uma droga abominável, sedutora, que causava insanidade e crime, a Cannabis sativa foi proibida nos Estados Unidos por razões que estavam tão ligadas a racismo e economia quanto a moralidade. Uma associação arbitrária que vinculava que a “loucura da maconha” com mexicanos, afro-americanos, jazz e violência havia sido adotado por doutrinadores, cujos temores e fantasias eram alimentados pela mídia. “Conserve a América americana”, era a fórmula usada pelos que buscavam transformar em bodes expiatórios as minorias raciais e as ondas de novos imigrantes, exibindo como uma ameaça para a moralidade da nação em histórias sensacionalistas de primeira página que encontraram seu epítome na imprensa marrom de William Radolph Hearst. Este odiava minorias e usava sua cadeia de jornais para agravar tensões raciais em todas as oportunidades. Era sabido que os jornais de Hearst afirmavam que a cocaína levava os negros a estuprar mulheres brancas – até que a cocaína saiu de moda, momento em que a maconha passou a ser responsável pela violação de mulheres brancas por negros.
Propaganda da década de 30 aponta os 'perigos' da erva
Hearst odiava especialmente os mexicanos. Seus jornais retratavam os mexicanos como preguiçosos, degenerados e violentos, além de fumantes de maconha e ladrões de empregos. È bem possível que o verdadeiro motivo por trás desse preconceito fosse o fato de Hearst ter perdido 320 mil hectares de floresta nativa para o exército de Pancho Villa, o que sugere que seu racismo era alimentado pela ameaça mexicana a seu império.
O ativista do cânhamo Jack Herer, que publicou em 1994 o livro O rei está nu, afirma convincentemente que a cannabis foi proibida nos Estados Unidos não só por razões “morais”, mas por razões econômicas. Os produtos de cânhamo ameaçavam certos grupos de interesse financeiros e industriais, que conspiraram para destruir a indústria dando apoio aos zelosos reformadores morais que visavam sua proibição em nível federal. As industrias petroquímica e de polpa de celulose, em particular, corriam o risco de perder bilhões de dólares se o potencial comercial do cânhamo fosse plenamente explorado. Herer cita Hearst e Du Pont como dois dos grupos de interesse mais responsáveis pela orquestração da extinção da manufatura do cânhamo. Na década de 1920, a companhia Du Pont desenvolveu e patenteou aditivos para combustíveis como o chumbo tetraetil, bem como os processos de manufatura de polpa e celulose baseados no sulfato e no sulfito, e vários novos produtos sintéticos como o náilon, o celofane e outros plásticos. Ao mesmo tempo, outras companhias estavam desenvolvendo produtos sintéticos a partir de recursos renováveis de biomassa – especialmente o cânhamo. O decorticador de cânhamo prometia eliminar em grande parte a necessidade de polpa de celulose, ameaçando assim reduzir drasticamente o valor das vastas áreas de florestas que Hearst ainda possuía. A Ford e outras companhia já estavam prometendo fazer com carboidratos de cânhamo todos os produtos que aquele momento eram feitos com hidrocarbonetos de petróleo. Em resposta, de 1935 e 1937, a Du Pont pressionou o principal conselheiro do Departamento do Tesouro, Herman Oliphant, em prol da proibição cannabis, assegurando-lhes que os petroquímicos sintéticos da Du Pont (como o uretano) podiam substituir o óleo de semente de cânhamo no mercado.
Algumas grandes companhias farmacêuticas também estavam em situação de ganhar com a proibição da cannabis, uma vez que seus tranquilizantes sintéticos de formula patenteada (como barbitúricos) iriam encontrar espaço no vazio deixado pela proibição daquele relaxante natural. Ao mesmo tempo, algumas companhias estavam distribuindo toneladas de maconha no Texas e no sudeste, onde era vendida no balcão em pacotes de 30 gramas, em tinturas, e por reembolso postal. Em El Paso, no Texas, farmacêuticos foram entrevistados para um relatório para um relatório destinado ao USDA (United States Department of Agriculture) que visava determinar se a “erva louca” mexicana era um problema a exigir intervenção federal. As respostas que eles deram refletiam conscientemente – e perpetuaram – a propaganda racista associada à maconha. Sem preocupação alguma com a objetividade, o relatório governamental afirmava que a maconha era comprada por mexicanos “de baixa extração” para fins de prazer e medicinais, inclusive o tratamento de doença venérea; outros compradores incluíam negros, choferes e brancos de baixa classe como aqueles afeitos ao uso de drogas geradores de dependência e parasitas do submundo. Com propaganda e influência política, a Du Pont, a Hearst e seus associados dirigiam seus esforços para esmagar a competição representada pelo cânhamo, e tiveram êxito.

Texto extraído de "O grande Livro da Cannabis" de Rowan Robinson. Guia de uso industrial, medicinal e ambiental.

domingo, 2 de maio de 2010

Música e Tumulto Racial na Detroit Motorizada

Graças a Henry Ford e de e sua Ford Motors e desde o fim da segunda guerra que muitos negros chegavam ao Estado de Michigan, fugindo do horror do fanatismo e racismo dos brancos do Sul. Esse contingente naturalmente ia parar nos guetos de Detroit e esse pessoal trazia consigo uma de suas maiores preciosidades, o blues.

Photo by Machine Gun Thompson's Blog

Com a indústria automobilística na década de 1950 o rock n' roll pegava Detroit de assalto. Os operários das fábricas tinham também no rock uma de suas maiores diversões. Na noite de sexta-feira todos se mandavam para os clubes noturnos na Michigan Avenue, onde gigantescas jukeboxes exerciam sua função e colocavam todos à parte do que estava por vir. Em cada esquina da cidade a garotada aprendia a beça ouvindo tanto a guitarra de Chuck Berry como aprendendo os passos fabulosos de James Brown. Essa fusão de estilos e referências continuava pelos anos seguintes; qualquer jovem de Detroit que ouvisse rádio e comprasse discos na época, assimilava em mesma intensidade em mesma intensidade o rock visceral britânico de bandas como The Who e Yardbirds e a liberdade musical do jazz de caras como John Coltrane, Eric Dolphy, Sun Ra, Pharaoh Sanders, Archie Shepp, Cecil Taylor, Sunny Murray e outros. A conexão entre os estilos era total e a absoluta. Os mais astutos sabiam que a liberdade musical estava muito acima do que qualquer rótulo estúpido. Para a molecada, que passava dias e dias ensaiando numa garagem, a música era o natural caminho para fugir da dura rotina das fábricas.

Sun Ra and His Myth Science Arkestra

Essa juventude de Detroit acabou tendo um background completamente diferente dos demais pólos culturais da América e do mundo. As influências e a paisagem industrial certamente criaram um peculiar estilo ou seja, a “pegada” de Detroit é diferente, no rock, soul ou blues.
O perfil dos músicos de Detroit era muito diferente dos hippies de são Francisco, dos intelectuais de Nova York, dos astros de Hollywood ou dos dândis da Swingin' London, por exemplo.
Funkadelic

Em meadas da década de 1960, a cidade dos motores era também o epicentro das radicais políticas juvenis da América. No verão de 1967, sim aquele mesmo do paz e amor de frisco, o exército tomou as ruas de Detroit buscando restabelecer a ordem. Tudo começou numa manhã de domingo, dia 23 de julho de 1967, quando a polícia local invadiu um bar na área barra pesada da cidade. No local, 82 negros comemoravam a volta de dois soldados do Vietnã e mesmo assim a policia resolveu levar todo mundo em cana. O que era um confronto dentro do bar acabou resultando num dos mais trágicos episódios da história moderna da América, conhecida também como o 12th Street Riot, onde 43 pessoas foram mortas e quase 500 ficaram feridas , em cinco dias de revolta. Desses 43 mortos, 33 eram negros e isso caracterizou o ocorrido como um dos maiores tumultos raciais da época.
Algum tempo aos os tumultos, já na década seguinte, as coisas só pioraram para Detroit, o desemprego disparou, o tráfico de drogas virou um meio de ganhar a vida pra muita gente e todo mundo passou a comprar armas, o que tornou a cidade a capital nacional dos homicídios: cerca de 800 por ano. De Motor City a cidade passava a ser conhecida como Murder City.
O cenário ficava diferente; quarteirões e mais quarteirões de prédios abandonados. A população, que antes era de quatro milhões de pessoas, cai para um milhão e alguns mais céticos a chamar a cidade de “Pompéia americana”.

 MC5 Album Art

Exageros a parte, Detroit sempre será considerada a uma das Mecas do rock mundial. O cenário agressivo da cidade sempre refletiu diretamente na música parida de suas entranhas. Da voz potente de Mitch Ryder passando pela violência de Stooges e MC5; da guitarra altíssima de Ted Nugent passando pela esmerada produção magnífica da Motown...

  Motor City is Burning, blues furioso do MC5 é inpirado em nesses dias, com direito a simulação de uma metralhadora na performance do guitarrista Wayne Kramer. It's time to Kick out jams motherfuckers!
 

Guerra Civil: Medo e Morte nas ruas


Últimas notícias:
Policiais ocupam o morro após guerra;
Supostos pastores praticavam tráfico;
PC identifica 20 líderes do tráfico no Rio;
Bandidos derrubam helicóptero da PM;
Polícia fecha a enfermaria do tráfico;
Ataque do tráfico no Rio de Janeiro fere 13 pessoas;
Preso suposto chefe do tráfico no Rio;
Rio cerca tráfico e até a polícia já teme a guerra;
Bandidos desviam 22% das armas de empresas privadas;
Em 6 anos, 21.240 armas de guardas privadas foram para as mãos de bandidos;
Traficante colombiano preso no Rio é transferido ao RN;
Uso do crack cresceu após ações contra a cocaína;
Bope está no topo, diz comandante;

 
 Mapa do tráfico de seres humanos
52 PM's são presos por corrupção e Rio pode recorrer à Força Nacional
Presos 4 acusados de incendiar micro-ônibus;
Soldado da polícia modelo é preso por roubar caixa;
PM é preso com ecstasy e LSD em Parnamirim-RN;
Preso ex-policial que atuava como informante do tráfico;
Preso ex-PM suspeito de ser segurança do tráfico;
Policia aprende armas no Morro da Providência;
Disputa pelo controle de morros no Rio deixa um PM morto.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Arte de Carlos Latuff


 

Carlos Latuff é um carica de 41 anos, engajado cartunista brasileiro e conhecido internacionalmente por utilizar sua arte como instrumento de denúncia com publicações fora dos jornalões, dando alguma dor de cabeça para uns e outros pelo mundo afora. Vez e outra é chamado pra comparecer à alguma delegacia, como no caso em que usou o mascote do Pan com um fuzil em um cartoon em 2007. Ganhou uma página na web dedicada à caça de sua cabeça por partidários do Likud israelense em 2006. Como um dos apreciadores de sua arte, deixo aqui uma entrevista realizada para o Canal Brasil, onde tomei conhecimento de seus trabalhos pela primeira vez, e posteriormente publicada no site: www.overmundo.com.br, com certeza o figura ainda dará muitas sapatadas por aí antes de ser importunado por algum xiita, direitista, fanático-maluco, republicanista ou qualquer outro "ista". E não é só na gringa que o cara incomoda não, aqui também, de fascistas à pseudo-fascistas, jornalistas globais e até outros artistas como o próprio comenta;

“O Chico Caruso, num debate aqui na UFRJ, disse que não sou cartunista, sou ativista. Que quero botar fogo no mundo, enquanto ele e outros cartunistas como Jaquar e essa turminha querem construir uma mídia democrática para o Brasil: Rá, rá, rá”.

O artista teve sua obra exposta nos folhetos zapatistas no México, no muro dos campos de refugiados palestinos no Líbano, nas revistas dos sindicatos coreanos, nos livros bielo-russos sobre anarquismo e em tantas outras causas humanistas de peso na atualidade.

Então, qual a tua arte, o teu trabalho?

O papel da arte não é ser correia de transmissão de políticas reacionárias. A arte que vale a pena hoje é aquela que questiona exatamente esses modelos. Ela tem que te colocar na parede, tem de fazer você sentir. Não precisa ser o tempo toda engajada, mas falta arte engajada. Comparativamente, por exemplo, à época da ditadura, que você tinha muitos artistas que davam a cara para bater, que produziam arte de contestação no cinema, no teatro, na poesia, no desenho, pintura, escultura. Mas hoje, de acordo com o pensamento vigente, não existe mais necessidade de se levantar, de reagir, de questionar porque nós estamos na democracia. “Resistir só faz sentido quando você tem tanque na rua...” É um ledo engano pensar a liberdade dessa forma, porque hoje se vive num sistema autoritário, de pensamento único, em que a mídia dita para você o que é ou não verdade.
Democracia é o que tem lá nos Estados Unidos, que só dois partidos centralizam a disputa? Democracia é o Paquistão, porque os Estados Unidos apóia o regime? O governo norte-americano ao mesmo tempo em que diz que Cuba é uma ditadura, não se refere como ditadura ao governo do Paquistão, porque é pró-americano. Dizem que o Hamas ganhou as eleições legítimas, na Palestina. Houve observadores internacionais... Mas eles são considerados terroristas. Depois do 11 de setembro foi foda, inverteu tudo.
Então nem tudo pode ser arte engajada, porque senão fica chato. E nem tudo pode ser entretenimento, porque fica vazio. É preciso ter a combinação das duas coisas, que é o que não vemos atualmente. Hoje, é só entretenimento, e nele já tem a questão ideológica colocada, só que de maneira subliminar ou lúdica. As pessoas não percebem. Normalmente, o cara que assiste Jack Bower ou Tropa de Elite é daquele tipo: “Ah, eu não gosto de política, eu não sou político”. Mas já está sendo cooptado sem saber.
 
Na época em que prestou esclarecimentos à polícia em 1999, pela divulgação do cartaz: A Polícia Mata

 Tu acreditas no poder de transformação da tua arte?

Eu questionava se a charge poderia ser, de fato, um agente transformador. Eu pensava: “Porra, mas é só um desenho na revista, num jornal, na internet. Um desenho não pára um míssel, não pára uma bala”. Mas aí, conversei com um cara, em Gaza: “Vem cá, faz diferença meu trabalho para você”? Falou que sim, que dava ânimo para eles, levantava a moral. Aí ele me fez lembrar que um dos heróis do povo palestino é um cartunista: Najir Al Ali. Então pensei: “Caralho, é isso. Realmente faz diferença. A arte levanta a moral quando você está na crise, é um tapa no ombro, é um afago na hora que você precisa”.

As pessoas precisam conhecer teu trabalho para que ele tenha esse efeito, e até Gaza tem um caminho... Qual é a relação que tens com tua produção, na questão da distribuição, do uso das imagens?

Antes da internet, eu não tinha qualquer perspectiva de ter o meu trabalho exibido nacionalmente ou fora do Brasil, porque eu dependeria, teria de me vender para um grande truste de comunicação. Mas com a internet ficou plenamente possível a distribuição dessas imagens.
Quando você cria uma página na internet, um blog, ou envia um desenho por e-mail para alguém, existe um fluxo, é o que se diz de processo viral. Eu achava que esse fluxo se restringia ao mundo virtual. Mas aí é que vem a mágica do negócio: o sujeito vê aquele desenho na internet e tem a possibilidade de imprimir, reproduzir numa publicação. Fiz uma charge sobre o atentado contra Benazir Butto, e saiu em jornal de grande circulação lá na Turquia. Eles pegaram na internet. Assim como acontece com o Comitê de Solidariedade aos Zapatistas, que pegava os meus desenhos e reproduzia em posters, folheto, panfleto, numa camisa. Os comitês de solidariedade à Palestina, ao Iraque, fazem da mesma maneira. E, aí, fodeu, aí corre… É um processo multiplicador. Eu não tenho controle sobre isso. É domínio público. E é isso que me importa, pois essas imagens apresentam uma visão diferente da grande imprensa burguesa e corporativa. São aquelas verdades inconvenientes que eles não querem que sejam vistas, mas a internet consegue quebrar esses bloqueios midiáticos. Então, para mim, como artista engajado, o copyleft é a melhor solução.

Tu não estás preocupado se pessoas ganham dinheiro com essa liberdade de uso das imagens? Como é tua arte ser de domínio público, de se apropriarem dela, mesmo que tu não saibas pra quê?

Aí vem o ativismo. Só é possível fazer isso com vistas a uma questão político-social. Não é uma questão monetária que está em jogo. Tem gente que usa esses desenhos para fins da militância, têm outros que são para embolsar, mas isso não é importante para mim. Por exemplo, a imagem do Che Guevara usando um kafia, aquele lenço que se coloca na cabeça... Aquele desenho, independente de neguinho faturar ou não, o que importa é que ele esteja rodando, esteja vivo.
Ano passado me mandaram uma fotografia de um campo de refugiados palestinos no Líbano e tinha esse desenho (mostra a camiseta que está usando) na parede. É isso que eu quero, que esses desenhos façam parte do ideário, do imaginário das pessoas, porque eles têm uma mensagem positiva sobre os palestinos que você não vê em lugar nenhum, porque o senso comum sobre os palestinos é que são terroristas, assassinos, fundamentalistas. Então, para quebrar o senso comum a melhor maneira, a que toca mais profundamente, é através da arte. Muita gente vai soltar foguetes quando eu bater as botas, vai abrir champagne no dia em que eu morrer. Se você procurar no Google pelo meu nome, você vai ver gente que me ama e que me odeia. Num site chamado Likudnik, em Israel, me ameaçaram dizendo que Israel já deveria ter cuidado de mim de um jeito ou de outro. Então, é sempre possível que alguém tome uma providência contra mim. Mas aí vem o exemplo do Najir Al Ali, que foi assassinado em Londres. O trabalho dele continua rodando o mundo, o tempo todo. Isso é a vitória maior.

E como é isso de também usar a arte para sobreviver?

Tenho um trabalho paralelo que faço junto à imprensa sindical, desde 1990. Se construí uma carreira, consegui viver até hoje, comer, foi graças à imprensa sindical. Com meus pontos de vista, jamais poderia trabalhar na grande imprensa. A não ser que eu fosse uma espécie de Arnaldo Jabor, que me vendesse. Tem muita gente que tem um passado comunista ou de esquerda, que diante das “circunstâncias”, do chamado do canto da seria da mídia, se vende. Franklin Martins era guerrilheiro, agora acho que é até ministro, né?
Eu achava que ter um passado guerrilheiro era credencial para alguma coisa. Porra nenhuma! Que aí, os caras ficam velhos e viram a casaca fácil! Como se essa coisa da queda do muro fosse a desculpa que precisavam: “Não tem mais a disputa ideológica de esquerda e direita… os tempos mudaram… agora é democracia”. Aí, os caras abrem as pernas. E vai trabalhar onde? Na Globo, para de repente bater nos movimentos que, no passado, ele tinha afinidade ideológica.
 
E a gente ainda vive numa luta de classes…


Evidente! Dizer que não existe luta ideológica é conversa fiada. Agora, “tudo é mercado”. É muito ruim, hein! Se fosse assim, bastava você pagar para ter publicado na grande imprensa qualquer conteúdo. Mas não é assim que a banda toca. Em 1999 eu queria fazer uns outdoors de uma exposição de charges sobre violência policial, com o título “A Polícia Mata”. Eu tinha o dinheiro, mas a empresa de outdoor se recusou. “Ué, mas não é o mercado? Não tinha o dinheiro?” Essas censuras são permanentes, continuam. Não é oficial, como na época da ditadura, mas agora você tem a censura do mercado, que é baseada também em questões ideológicas.
Eu lembro que a CUT tinha um esquema para montar uma emissora de televisão, com estúdio, tudo pronto, mas não conseguia a concessão. Como é que se dá concessão de rádio e TV? É uma questão mercadológica? Nada disso, é uma questão essencialmente ideológica. Mas tem sempre esses arautos do mercado, do liberalismo dizendo: “Não, caiu o muro, agora não tem mais esquerda e direita”.
Aqui que não tem! Neguinho bate no Chavez 24 horas! É uníssono. Não é possível que num país enorme como o Brasil, de norte a sul, todas as emissoras só batam no Chavez. Não pode haver essa unanimidade, tem de ter um contraponto. Até nos EUA, que são aquele monte de reaça, você tem contraponto. Sobre a guerra do Iraque, sobre a questão palestina, em Israel você tem o contraponto.


E o que tu achas sobre essas pessoas que transgridem com o direito autoral para fazer circular mensagens?

Tem um novo filme do Brian de Palma chamado “Redacted”, que já está na internet, devidamente legendado. Eu baixei e assisti. O Brian de Palma não tem trajetória de militância, é essencialmente um diretor hollywoodiano, comercial. Rapaz, esse “Redacted” é uma porrada, um soco no estômago. Mostra os eventos que antecederam ao estupro de uma menina de 15 anos, a sua execução e da sua família por soldados americanos em Samara, no Iraque. Se você não sabe que foi o Brian de Palma que filmou aquilo, você vai dizer que é o Michael Moore ou qualquer ativista de esquerda, comunista. Fernando Botero, que não é artista engajado, é um pintor de galerias, viu aquelas imagens de prisioneiros sendo abusados em Abu Ghraib e resolveu fazer uma série de pinturas que incomodam as pessoas, e elas não estão à venda. A maioria das galerias dos EUA se recusou a exibir as pinturas. Ele, que sempre encheu o rabo de dinheiro com aquelas figuras rechonchudas, teve seu chilique. Então, mesmo que o sujeito não seja um ativista, se como artista, de vez em quando, comprar essas brigas, lutas justas, já está bom. Que você não vê um puto de um artista fazer concerto pela Palestina. Diversas outras campanhas que você possa imaginar, eles fazem: Darfur, as baleias, aquecimento global, o caralho de asas, mas você nunca tem da Palestina.
Eu espero que os artistas sejam tocados, porque a situação está muito feia. As idéias fascistóides estão brotando do chão como erva daninha, estão ganhando espaço, sendo bem recebidas pelas pessoas. A grande mídia tem servido de alto-falante para essas coisas. É preciso voltar a incomodar, o que não está mais acontecendo. Está todo mundo abraçando o pensamento comum: todo mundo só quer o entretenimento… E a ideologia vai sendo colocada na nossa bunda no entretenimento, mas ninguém sente. É preciso que os artistas tenham um ímpeto guerrilheiro.

TALES OF IRAQ WAR by LATUFF 


domingo, 7 de março de 2010

MC5, White Panthers and Sonic Revolution


O partido dos Panteras Brancas, insprado pelos Panters Negras, emergiu do Wokshop de Artistas de Detroit, em 1968, mostrando mais uma vez que foram ex-trabalhadores culturais que lideraram a radicalização da juventude americana com o recém-desenvolvido estilo freak de agitação política. O principal objetivo dos Panteras Brancas era levar essa agitação para as escolas, e abanda de rock´n´roll do movimento - o MC5 - era a sua arma mais poderosa para atingir esse objetivo. No entanto, em 1970, John Sinclair ( líder dos Panteras Brancas) acusou o grupo de ter se vendido. Nessa época, Sinclair estava na cadeia servindo uma sentença de dez anos por ter passado dois baseados de maconha para um detetive de narcóticos à paisana. Outro Pantera Branca, Pun Plamondon, entrou para a lista dos mais procurados do FBI por ter supostamente colocado uma bomba em um prédio da CIA em Ann Arbor.


O estilo freak de agitação, quando utilizado por aqueles dispostos a aguentar a violenta reação que caía sobre eles, era particularmente efetivo, por que representava alternativas tanto culturais como políticas à dominação capitalista. O sistema, ameaçado pela pela influência dessa vanguarda violenta, reagiu enfatizando na mídia o aspecto "paz e amor" da cultura hippie. No entanto, os militantes não desapareceram poque a mídia escolheu representar a forma errônia de o movimento: na verdade, eles voltaram na forma de guerrilha urbana.
(Trecho de Assalto à Cultura de Stewart Home da editora Conrad).

Boa parte dessa geração foi destruída pela droga de fácil acesso que era distribuída pelos arredores de Detroit. Solução encontrada pelo trágico governo Nixon para assim aniquilar os artistas e agitadores culturais. Pois, com heroína nas veias não há revolução.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Miniverdade, Minipaz, Miniamor e Minifartura


O ministério da Verdade – ou Miniver, em Novilíngua – era completamente diferente de qualquer outro objeto visível. Era uma enorme pirâmide de alvíssimo cimento branco, erguendo-se terraço sobre terraço, trezentos metros sobre o solo. De onde estava Winston conseguia ler, em letras elegantes colocadas na fachada, os três lemas do Partido:
Guerra é Paz
Liberdade é Escravidão
Ignorância é Força
(Trecho de 1984, de George Orwell, na tradução de Wilson Velloso, para a Conpanhia Editora Nacional)