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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Cânhamo: primeira parte


O cânhamo está na ordem do dia. Os últimos anos transformaram rapidamente a idéia de uma moderna indústria do cânhamo de fantasia em realidade. A presença física de tecido, papel, materiais de construção e produtos de óleo de sementes do cânhamo produziu enorme impacto no imaginário social. Talvez, mais ainda que a informação sobre a importância da planta no passado, essa tenha sido a semente da revitalização do cânhamo.
Desde a década de 1930 tem havido um esforço para doutrinar as pessoas, impondo-lhes a crença de que o cânhamo não passa de uma praga maligna “com raízes no inferno”, mas quando lhes mostram uma camisa que parece linho e dizem que é feita do caule da mesma planta que produz a maconha, uma profunda alteração de consciência tem início. Sobrevém a compreensão de que o cânhamo não é uma “droga” mortal, mas simplesmente uma planta possuidora de uma longa e notável história de serviços à humanidade.
É significativo que essa consciência esteja florescendo quando ainda vive uma geração que se lembra das primeiras décadas do século XX, época em que o cânhamo era cultivado nas terras da família, uma geração que conhece a textura e o sabor de um velho conhecido, quando o sentem ou o experimentam. Os plantadores do cânhamo dos velhos tempos e seus filhos ainda estão por aí para atestar a existência e o valor do cânhamo industrial.

(Henry Ford e o carro feito com a resistente fibra de cânhamo em 1941)

Foi só uma questão de tempo antes que os empresários de diversos países passassem a importar produtos feitos de cânhamo. Nos Estados Unidos, onde esse movimento teve muita força, os únicos produtos do cânhamo disponíveis em meados de 1987 eram cordão húngaro, alguns papéis especiais como papéis para cigarros e sementes esterilizadas para pássaros. No Brasil, nem mesmo esse material encontra-se disponível na atualidade. Em 1989, um grupo chamado Business Alliance for Commerce in Hemp (BACH) descobriu e publicou normas referentes á importação do cânhamo pela Alfandega dos Estados Unidos, que excluem especialmente o caule e a semente esterilizada, tornando legal o comércio desses itens importados. Em meados de 1989, a organização já havia produzido vários textos incentivando empresários do cânhamo a se lançar nos negócios e dando-lhes as ferramentas para tanto. A educação teve uma grande importância na estrategia de marketing inicial, e panfletos da BACH, como “Os muitos usos do cânhamo”, foram distribuídos por toda parte por seus representantes. O foco recaía sobre as vantagens ambientais e econômicas do uso do cânhamo na produção de fibra, alimento e combustível.
O Grande Livro da Cannabis

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Epígrafe para um Livro Condenado

O VENENO
Sabe o vinho vestir o ambiente mais espúrio
Com seu luxo prodigioso,
E engendra mais de um pórtico miraculoso
No ouro de um vapor purpúreo,
Como um sol que se põe no ocaso nebuloso.

O ópio dilata o que contornos não tem mais,
Aprofunda o ilimitado,
Alonga o tempo, escava a volúpia e o pecado,
E de prazeres sensuais
Enche a alma para além do que conter lhe é dado.

Mas nada disso vale o veneno que escorre
De teu verde olhar perverso,
Laguna onde minha alma se mira ao inverso...
E meu sonho logo acorre
Para saciar-se nesse abismo em fel imerso.

Nada disso se iguala ao prodígio sombrio
Da tua saliva forte,
Que a alma me impele ao esquecimento num transporte,
E, carreando o desvario,
Desfalecida a arrasta até os umbrais da morte!

EPÍGRAFE PARA UM LIVRO CONDENADO
Leitor pacífico e bucólico,
Homem de bem, austero e lhano,
Joga fora este saturniano
Livro, orgíaco e melancólico.

Se não herdaste o dom hipnótico
De Satã, o astuto decano,
Irias ler-me por engano,
Ou me terias por neurótico.

Mas se, sem teus olhos piscar,
Do abismo os horrores conheces,
Lê-me afinal que me hás de amar;

Alma curiosa que padeces
E buscas no éden teu abrigo,
Tem dó de mim... Ou te maldigo!

"As Flores do Mal", Charles Baudelaire (1821 - 1867), foi um dos precursores do simbolismo

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

o Mago Químico e o MDMA


 Alexander Shulgin recebendo Hamilton Morris em seu laboratório

Apesar do nome de Alexander Shulgin não ser exatamente familiar, ele é sem dúvida o químico psicodélico mais importante que já existiu. Aqueles que o conhecem costumam saber apenas sobre o seu papel na redescoberta e popularização do MDMA. Mas o MDMA é apenas um dos mais de cem compostos químicos que compõem a farmacopeia de Shulgin que se entende tão profundamente no desconhecido que ele precisa constantemente inventar novas expressões para descrever os seus efeitos (“ruptura ocular” é uma de minhas preferidas). As drogas são auditivos seletivos e alucinógenos táteis, psicodélicos que dilatam o tempo ou colocam o usuário em um estado de confusão amnésica, são antidepressivos, afrodisíacos, estimulantes, empatógenos, entactógenos, neurotoxinas e pelo menos um inseticida bem lucrativo bem lucrativo. Também são alguns dos remédios mais valiosos que o homem conhece e, apesar de apenas uma pequena parte deles ter sido formalmente estudado, são as melhores ferramentas de que dispomos para compreender a composição química humana.
A carreira e Shulgin começou na empresa Dow Chemical, onde ele fez nome ao sintetizar o Zectran, o primeiro inseticida biodegradável. Depois desse sucesso, ele recebeu carta branca para trabalhar com os químicos que quisesse. Ele escolheu os psicodélicos e se dedicou à criação de uma anfetamina chamada DOM, que na época só ficava atrás do LSD em termos de potência. Uma única dose generosa chega a durar 48 horas. Em 1967, um químico do Brooklyn, Nick Sand, percebeu o potencial comercial da droga. Ele construiu um laboratório industrial em São Francisco onde cozinhava DOM em um panelão de sopa de 150 litros, e vendia por quilo para os Hells Angels, que cruzavam os EUA despejavam dezenas de milhares de tabletes de 20 mg de DOM extremamente potentes sobre o público. Esse influxo despirocou hordas de hippies no Golden Gate Park.
Enquanto isso, a menos de uma quadra Tompkins Square Park, a polícia de Nova York derrubou a porta de uma igreja psicodélica chamada Igreja da Exaltação Mística em uma batida matutina. A polícia aprendeu cerca de oito milhões de dólares em drogas psicodélicas, incluindo 1.500 doses de DOM, dois pés de maconha e “inúmeros colchões”. Notícias de uma epidemia de surtos induzidos pelo DOM enchiam os jornais, um usuário em Mahnhattan ingeriu uma dose e realizou um ritual de haraquiri, estripando a si mesmo com uma espada de samurai no Dia das Mães. A essa altura, a droga ainda não tinha sido identificada, e o New York Times alternava as informações ora dizendo que se tratava de um gás tóxico militar secreto, ora que se tratava do “caviar de drogas psicodélicas”. Acabaram descobrindo que o DOM era resultado das pesquisas farmacêuticas conduzidas por um então desconhecido químico da Dow. Como era de se esperar, a Dow não ficou contente com isso. Assim que a fonte foi identificada, as relações entre Shulgin e a Dow foram cortadas.
Livre da Dow, Shulgin montou seu próprio laboratório no quintal de casa e passou a pesquisar drogas com total independência e com a consciência de que as substâncias químicas que criava tinham o potencial de ir parar na mente de pelo menos um milhão de pessoas. Ele testava pessoalmente cada novo composto e, quando achava válido, também testava em sua esposa e amigos, sempre dando ênfase especial às propriedades sexuais dos psicodélicos (ou, como diz o próprio, “o erótico”). Ao longo de 50 anos, Shulgin concluiu o mais exaustivo exame de estruturas psicodélicas jamais feito e produziu um leque de drogas que rivalizava com a produção de muitas gigantes farmacêuticas. O tempo todo preservou sua sanidade e cavalheirismo, tocando viola, dando aulas na universidade e comparecendo a saraus de elite no Bohemian Grove.
Texto de Hamilton Morris, farmacologista

Alexander "Sasha" Shulgin (Berkeley, 17 de Junho de 1925) é um farmacologista, químico e pesquisador de drogas russo-estadunidense.
Shulgin popularizou o MDMA no final dos anos 70 e início dos anos 80, especialmente pelos seus usos em tratamentos psicofarmacêuticos e tratamento de depressão e desordem depressiva pós-traumática. Nos anos seguintes, Shulgin descobriu e sintetizou mais de 230 componentes psicoativos. Em 1991 e 1997, ele e sua esposa Ann Shulgin escreveram os livros PiHKAL (Phenethylamines I Have Known and Loved) e TiHKAL (Tryptamines I Have Known and Loved), ambos sobre substâncias psicoativas. Atualmente continua seu trabalho em sua casa em Lafayette, Califórnia.


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Propaganda racista, conspiração e cannabis

Um artigo incompetente que associava maconha, crime e insanidade foi publicado no Journal of Criminal Law and Criminology em 1932, passando a ser frequentemente citado a partir de então como um estudo definitivo. Os autores, L.E. Bowery, um policial de Whichita, no Kansas, e M.A. Hayes, afirmaram que o usuário de maconha é capaz de:

“grandes proezas de força e resistência, durante as quais nenhuma fadiga é sentida... Os desejos sexuais são estimulados e podem conduzir a atos antinaturais, como exibição indecente e estupro... (O uso da maconha) termina na destruição dos tecidos e centros nervosos do cérebro, e produz danos irreparáveis. Se prolongado, o resultado inegável é a insanidade, qualificada por aqueles que a conhecem como absolutamente incurável, e culminando, sem exceção na morte.”

Embora os promotores da moral costumassem proclamar que a maconha gera uma droga abominável, sedutora, que causava insanidade e crime, a Cannabis sativa foi proibida nos Estados Unidos por razões que estavam tão ligadas a racismo e economia quanto a moralidade. Uma associação arbitrária que vinculava que a “loucura da maconha” com mexicanos, afro-americanos, jazz e violência havia sido adotado por doutrinadores, cujos temores e fantasias eram alimentados pela mídia. “Conserve a América americana”, era a fórmula usada pelos que buscavam transformar em bodes expiatórios as minorias raciais e as ondas de novos imigrantes, exibindo como uma ameaça para a moralidade da nação em histórias sensacionalistas de primeira página que encontraram seu epítome na imprensa marrom de William Radolph Hearst. Este odiava minorias e usava sua cadeia de jornais para agravar tensões raciais em todas as oportunidades. Era sabido que os jornais de Hearst afirmavam que a cocaína levava os negros a estuprar mulheres brancas – até que a cocaína saiu de moda, momento em que a maconha passou a ser responsável pela violação de mulheres brancas por negros.
Propaganda da década de 30 aponta os 'perigos' da erva
Hearst odiava especialmente os mexicanos. Seus jornais retratavam os mexicanos como preguiçosos, degenerados e violentos, além de fumantes de maconha e ladrões de empregos. È bem possível que o verdadeiro motivo por trás desse preconceito fosse o fato de Hearst ter perdido 320 mil hectares de floresta nativa para o exército de Pancho Villa, o que sugere que seu racismo era alimentado pela ameaça mexicana a seu império.
O ativista do cânhamo Jack Herer, que publicou em 1994 o livro O rei está nu, afirma convincentemente que a cannabis foi proibida nos Estados Unidos não só por razões “morais”, mas por razões econômicas. Os produtos de cânhamo ameaçavam certos grupos de interesse financeiros e industriais, que conspiraram para destruir a indústria dando apoio aos zelosos reformadores morais que visavam sua proibição em nível federal. As industrias petroquímica e de polpa de celulose, em particular, corriam o risco de perder bilhões de dólares se o potencial comercial do cânhamo fosse plenamente explorado. Herer cita Hearst e Du Pont como dois dos grupos de interesse mais responsáveis pela orquestração da extinção da manufatura do cânhamo. Na década de 1920, a companhia Du Pont desenvolveu e patenteou aditivos para combustíveis como o chumbo tetraetil, bem como os processos de manufatura de polpa e celulose baseados no sulfato e no sulfito, e vários novos produtos sintéticos como o náilon, o celofane e outros plásticos. Ao mesmo tempo, outras companhias estavam desenvolvendo produtos sintéticos a partir de recursos renováveis de biomassa – especialmente o cânhamo. O decorticador de cânhamo prometia eliminar em grande parte a necessidade de polpa de celulose, ameaçando assim reduzir drasticamente o valor das vastas áreas de florestas que Hearst ainda possuía. A Ford e outras companhia já estavam prometendo fazer com carboidratos de cânhamo todos os produtos que aquele momento eram feitos com hidrocarbonetos de petróleo. Em resposta, de 1935 e 1937, a Du Pont pressionou o principal conselheiro do Departamento do Tesouro, Herman Oliphant, em prol da proibição cannabis, assegurando-lhes que os petroquímicos sintéticos da Du Pont (como o uretano) podiam substituir o óleo de semente de cânhamo no mercado.
Algumas grandes companhias farmacêuticas também estavam em situação de ganhar com a proibição da cannabis, uma vez que seus tranquilizantes sintéticos de formula patenteada (como barbitúricos) iriam encontrar espaço no vazio deixado pela proibição daquele relaxante natural. Ao mesmo tempo, algumas companhias estavam distribuindo toneladas de maconha no Texas e no sudeste, onde era vendida no balcão em pacotes de 30 gramas, em tinturas, e por reembolso postal. Em El Paso, no Texas, farmacêuticos foram entrevistados para um relatório para um relatório destinado ao USDA (United States Department of Agriculture) que visava determinar se a “erva louca” mexicana era um problema a exigir intervenção federal. As respostas que eles deram refletiam conscientemente – e perpetuaram – a propaganda racista associada à maconha. Sem preocupação alguma com a objetividade, o relatório governamental afirmava que a maconha era comprada por mexicanos “de baixa extração” para fins de prazer e medicinais, inclusive o tratamento de doença venérea; outros compradores incluíam negros, choferes e brancos de baixa classe como aqueles afeitos ao uso de drogas geradores de dependência e parasitas do submundo. Com propaganda e influência política, a Du Pont, a Hearst e seus associados dirigiam seus esforços para esmagar a competição representada pelo cânhamo, e tiveram êxito.

Texto extraído de "O grande Livro da Cannabis" de Rowan Robinson. Guia de uso industrial, medicinal e ambiental.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

William Burroughs míssil literário

Uma das mentes mais radicais do século XX

Como escritor, pintor ou escultor, o velho junkie combinou modernismo e surrealismo, imagens e sonhos.
William S. Burroughs nasceu em 1914, em St. Louis, Estados Unidos. Na década de 40 mudou-se para Nova York, onde iniciou sua carreira literária se graduando em Havard e estudou psicanálise. Entre suas experiências, conheceu hospícios, trabalhou como detetive particular, exterminador de insetos e roedores e barman, em fábricas e escritórios, antes disso, foi exonerado do exército e diagnosticado como esquizofrênico. Em 1959, publicou o romance Naked Lunch (Almoço Nu). Seguiu-se Soft Machine (61), The Ticket That Exploded (62), Nova Express (64), The Wild Boys (71) e Exterminator! (73), entre outros, cheios de realismo exasperado, mistura suas experiências e radicalidade joyceana. Seus temas transitam pela burocracia estatal, guerras, tirania psiquiátricas, homossexualismo, drogas, em um universo dominado por leis emanadas da loucura monopolística e tecnologia do mundo pós-industrial. Burroughs disse que sua obra “se volta contra aqueles que se empenham , por estupidez ou vontade, em explodir o planeta e torna-lo inabitável”. Seus personagens negam tudo o que representa o American Way of Life.


Cartaz do filme Naked lunch (1991), inspirado no romance homônimo

Após uma temporada na Europa, Burroughs voltou para Nova York no início da década de 70, onde passou a lecionar e conviver com intelectuais e artistas como Andy Warhol e Susan Sontag.
Participou de inúmeros álbuns musicais, recitando poemas ou outros textos, incluindo trabalhos de Frank Zappa e John Cage. Na década de 80, era visto como um gigante da contracultura. No final da vida, mudou-se para Lawrence (Kansas), onde morreu, em agosto de 1997.
Nos anos 80 e 70 a Editora Brasiliense publicou por aqui, Junky (1953), em que explora suas experiências com heroína, o radical ''Almoço Nu'' e mais tarde, ''O gato por dentro'' e ''Cartas do Yage'' pela LPM Editores. Apesar de ser associado aos escritores da beat generation, Burroughs introduziu inovações estilísticas criando uma literatura experimental alcançada através de fluxos de consciência modificando a literatura no século XX.

William S. Burroughs: olhar de chumbo , premiado da American Academy and Institute of Arts and Letters
 
"Não nos damos conta de até que ponto a história é ficção. O passado em grande parte é invenção dos vivos. E a história é um montão de coisas fabricadas. Não há fatos de verdade."  
William Burroughs, 1978. 

 Fontes: Almoço Nu, Junky, American Academy and Institute of Arts And Letters


terça-feira, 8 de junho de 2010

Miss LSD

Mudanças cruciais ocorreram na música a partir de adventos que ocorreram nos sixties, tanto nos redutos intelectuais como em circuitos mais underground, ao redor do globo. O LSD (Lysergic Acid Diethylamide) começou a circular no meio da década de 60 trazendo evolução à música e modificando sua estrutura. Tais trasformações elevou o rock que passa a ser visto como arte. Junto desse aditivo surgem novas técnicas de gravação nos estúdios e discos que até hoje influenciam as pessoas.

Algumas canções embebidas em ácido:

The Crystal Ship The Doors (1966)
O público ficou atordoado com o grau de expansão sensorial alcançado pelos Doors em “The Crystal Ship”. Além de trazer uma bela melodia, o tema foi baseado na mitologia celta do famoso Book of the Dun Cow. O próprio nome da banda foi inpirado no livro “As Portas da Percepção” de Aldous Huxley, em que narra experiências alucinógenas.

I Feel Free Cream (1966)

Eric Clapton nos tempos do Cream

Bastava conferir a piração de improvisos do power trio no palco. Em estúdio a paixão pelo LSD ficou evidente em alguns temas, especialmente no segundo disco, Disraeli Gears. A composição de Jack Bruce, “We're Going Wrong”, é um exemplo. Porém foi com uma música do primeiro disco (Fresh Cream) que o trio inglês chegou as paradas sentindo a liberdade de trazer ao público todos os seus sonhos ácidos, visões e pesadelos da psicodelia.

Good Vibrations The Beach Boys(1966)

 

O perfeccionista Brian Wilson durante as gravações de Pet Sounds

Os arranjos perfeitos de Mr. Brian Wilson no disco Pet Sounds modificou toda a música pop. 
Nesse trabalho, ele teceu camadas elaboradas de harmonias vocais, juntamente com efeitos de som e instrumentos não-convencionais, como sinos de bicicleta, órgãos, cravos, flautas e teremim.
A mente genial e perfeccionista de Brian Wilson e um pouco de ácido, trouxe em forma de sinfonia e doces “viagens” um dos álbuns mais importantes de toda a história da música e colocou de Beatles à Rolling Stones literalmente de quatro.

Tomorrow Never Knows The Beatles (1966)
Lennon queria que sua voz soasse como a de Dalai Lama pregando do alto do Himalaia. Encarregou o produtor George Martin para a missão, que passou a voz de Lennon por uma caixa enquanto ele recitava palavras do 'Livro Tibetano dos Mortos'. Totalmente à frente de seu tempo com guitarras gravadas de trás para a frente nos tapes e loops, som comprimido de bateria e teclados em momentos estratégicos. O álbum Revolver ainda traz 'Doctor Robert' o dentista responsável por colocar ácido na xícara de café dos Beatles.

Astronomy Domine Pink Floyd (1967)
Pink Floyd: The Piper at the Gates of Dawn com o mentor Syd Barrett

'Astronomy Domine' abre a obra prima do Floyd, primeiro e derradeiro disco de Syd Barret gravado com a banda que fundou, The Piper at the Gates of Dawn pode ser considerado uma das peças mais anti-comerciais da história. Frases sem muito sentido, progressões melódicas absurdas, solos dissonantes e o clima constante de angústia. O álbum de estréia do Floyd assustou os engravatados da Capitol, gravadora norte-americana. Quatro minutos e um pouca do que passava na mente de Syd que depois viria a pagar o preço pelo consumo deliberado de LSD. Syd Barret foi talvez uma das maiores vítimas do ácido dos anos 60.

Purple Haze The Jimi Hendrix Experience (1967)

Estréia em disco do The Jimi Hendrix Experience

Em 1967, dava pra perceber que as coisas estavam mudando, 'Purple Haze' ('névoa púrpura') era o nome de um bom ácido, mesmo com a letra explicita, a música foi vinculada em várias rádios modificando padrões e chocando o mais conservadores. Segundo Pete Townshend do Who, um dos guitarristas mais reverenciado da época, ligou para seu amigo Eric Clapton após ouvir pela primeira vez o The Experience, lhe dizendo que 'ficariam sem seus empregos' tamanho o impacto que o jovem Jimi causou.

2000 Lights Years From Home The Rolling Stones (1967)

The Rolling Stones em 1967

Em 1966, os Stones já traziam um som experimental em Aftermath, mas o ápice veio em seguida com o álbum Their Satanic Majesties Request. Obra repleta de inovações, orquestrações, batidas, efeitos de eco e overdubs. “2000 Lights Years From Home” foi composta por Jagger na prisão em Brixton, por posse de drogas. Destaque para o telepático mellotron tocado por Brian Jones.

White Rabbit The Jefferson Airplane (1967)

Jefferson Airplane

O The Jefferson Airplane era uma das bandas queridinhas dos hippies de São Francisco ou 'Frisco', para os mais íntimos, nos fins de 1967 e tinha uma angelical vocalista à frente da banda, cantando versos como: “Uma pílula faz você ficar maior/ Outra faz você ficar menor/ E todas as pílulas que sua mãe te oferece/ Não fazem nada disso...” e ainda “Feed Your Head” (alimente seu cérebro!). “White Rabbit” é exemplo de como musicar uma viagem. Grace Slick tomava LSD e ficava ouvindo por horas a fio o álbum Sketches of Spain, de Miles Davis. Daí a idéia de transformar o andamento da música em um bolero e a melodia vocal com elementos orientais. Se tornou hino de protesto contra a guerra do Vietnã e um momento psicodélico sublime na história do rock.

In-A-Gadda-Da-Vida Iron Butterfly (1968)
O Iron butterfly era sinônimo de muitas experiências lisérgicas e muitas viraram gravações. Com o LSD em alta, 'In-A-Gadda-Da-Vida' se tornou um hit mundial com formato totalmente anti-comercial. Ao longo de 17 minutos de duração com solo de bateria e sons imitando animais. Segundo o guitarrista Erik Brann o tema foi inspirado em uma missa negra africana chamada “Missa Luba”.

We Will Fall  The Stooges (1969)

 The Stooges, foto de divulgação do primeiro álbum de 1969
Fim do verão do amor e da década de 60, trouxe ódio e falta de perspetiva. “We Will Fall” é a trilha definitiva das “bad-trips” em um mantra que se arrasta por mais de 10 minutos. Em 1969 essa faixa tenebrosa parece perfeita para o fim daquela era marcada pela guerra do Vietnã e conflitos raciais na América. 

Tecnicolor Mutantes (1971)
Os Mutantes

Apesar da banda utilizar de experiências psicodélicas desde os dois primeiros álbuns, foi na viagem a Paris, em 1970, que o LSD começou a fazer parte do dia a dia da trupe. Lá gravaram o álbum Tecnicolor, com versões para antigos clássicos em inglês, que permaneceu inédito até 2000. No entanto a música “Tecnicolor" acabou saindo no disco de 1971, Jardim Elétrico. Depois, já sem Rita Lee nos vocais, fariam um disco inteiro influenciado pelo LSD (A e o Z) descaracterizando a banda com um som progressivo que imperava na época.
Maggot Brain Funkadelic (1971)
Pessimismo anti flower-power, era barra pesada ser negro nos EUA de 1971, mesmo com musicos como Sly Stone e Marvin Gaye fazendo sucesso. Apesar de intrumental, “Maggiot Brain” diz muito! A guitarra de Eddie Hazel era mais que suficiente para tamanho feito. Com seus mais de 10 minutos mergulhado em ácido, paranóia e medo. O vocalista, George Clinton chegou para Hazel ( já com sua cabeça em Marte) e sussurrou no ouvido dele: “Toque como se sua mãe tivesse acabado de morrer!” Foi só colocar a fita pra rolar...

Outras pérolas lisérgicas:
A Girl Named Sandoz Eric Burdon and the New Animals (1967)
Sunshine Superman Donovan (1966)
Roller Coasters 13th Floor Elevators (1966)
Dark Stars the Grateful Dead (1969)
Section 43 Country Joe and the Fish (1966)
Eight Miles High The Byrds (1966)
Itchycoo Park The Small Faces (1966)
I Can See for Miles The Who (1967)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Ritual

secreta papoula
assentas quente em minhas veias
e o vento batendo nas pétalas
se esconde do pálido sol
junto doutras espécies
vem natural onírica

logo sangrar-te e
o ópio extrair
sentir teu peso
nos braços e o odor
para tão logo apaixonar-me
sem corromper-me
entre rochas te escondes
entre rochas te encontro
o mesmo mar que te banhas
choca-se entalhando as pedras

ritual hermético
revela segredos
tradição ancestral
ao sentir o vento 

e desvendar o falo
símbolo da natureza criadora
aguardar a lua
sentir o céu
permita-me
receber-te
oh sagrado êxtase

E eu lhe disse "Mas tu, quem és?". - "Eu", disse ele, "eu sou Poimandres, o Noús da Soberania absoluta. Eu sei o que queres e estou contigo em todo lugar". E eu disse: "Quero ser instruído sobre os seres, compreender sua natureza, conhecer Deus. Oh! como desejo entender!" Respondeu-me ele por sua vez: "Mantém em teu intelecto tudo o que desejas aprender e eu te instruirei."
I - Poimandres 2, 3
Corpus Hemeticum

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A cocaína no início do século passado

Gostaria de acrescentar que o texto a seguir desenvolvido pelo filósofo ocultista Aleister Crowley, apesar de conter certo lirismo possui o caráter esclarecedor como pouco vemos nos nossos dias. Lembrando que não se trata de uma apologia a droga em questão. Principalmente no que se refere ao autor blog. Pelo contrário, este rico documento do começo do século passado, em muitos aspectos mostra-se mais eficiente do que várias de nossas campanhas anti-drogas modernas, oferecendo uma linguagem clara e com detalhes de experiências do próprio autor.

Cocaína
Aleister Crowley, tradução de Pharzhuph

Introdução por Pharzhuph

O texto escrito por Aleister Crowley no início do século passado pode parecer num primeiro instante com alguma espécie de apologia ao uso de drogas. Tanto o autor quanto o assunto estão cobertos por insígnias nefastas: de um lado temos Crowley, persona non grata, agraciado por alguns tolos com a alcunha de pior homem do mundo; do outro lado temos um assunto que costuma ser varrido para debaixo de alguma pesada mobilha, um assunto coberto de preconceitos, mas que está por detrás de pesadas engrenagens que movem muitos mecanismos morais, sociais, familiares, interiores, criminosos, políticos e financeiros: o uso de drogas ilícitas.

Nos tempos em que o ensaio foi escrito a cocaína era uma droga prescrita por médicos à pacientes portadores de certas patologias. Era também a base de cosméticos e de outros medicamentos, desde loções pós-barba até tônicos para corar a pele de jovens pálidas. O próprio Freud a prescreveria para algumas de suas pacientes.

É óbvio e certo que se trata de uma droga potente, destruidora e que faz o homem subir voluntariamente ao cadafalso, além disso, trata-se de uma substância que tecnicamente não deveria ser encontrada com tanta facilidade, haja vista que é definitivamente proibida. Qualquer pessoa pode comprá-la sem muita dificuldade.

No ensaio que apresentamos, Crowley divaga entre extremos poéticos que vão da beleza onírica ao mais profundo inferno da dependência e da prostração. No emaranhado de idéias o autor aponta os pontos cruciais que poderiam guiar as pessoas para longe das margens dessa morte auto-infligida: a educação ao invés da proibição e do cárcere. Ele diz: “O remédio está em dar para as pessoas algo sobre o que possam pensar, em desenvolver suas mentes, em preenchê-las de ambições mais além dos dólares, em instaurar uma pauta de logro que fosse medida em termo de realidades eternas. Em uma palavra, em educá-las”. Naturalmente Crowley não defende as políticas de proibição e diz claramente que cada homem tem o direito de destruir a própria vida como queira.
A proposta da publicação desse ensaio é somente trazer ao leitor de nossa língua as idéias que Aleister Crowley publicou um século atrás. Não fazemos apologia ao uso de qualquer substância ilegal e não incentivamos nenhuma espécie de contravenção às leis vigentes. Em nossa opinião, cada indivíduo deveria dizer o que quisesse às drogas, desde que fosse capaz de arcar com todas as responsabilidades e conseqüências diretas e indiretas que elas causam para si, ao seu redor e aos outros indivíduos.

Vemos muitos de nossos conhecidos usando cocaína com certo controle, mas vemos também alguns indivíduos sendo controlados pelo amontoado de cristais alvos.
A sociedade e seus hipócritas olhos morais os apontam e os condenam. Por outro lado, essa mesma sociedade decadente, exalta Ritalinas, Valiuns e Prozacs e promove sua própria fuga artificial de tarja negra. Ovaciona as ciências modernas da mente com suas pílulas e comprimidos que não promovem outra coisa além de um outro vício, um outro paraíso artificial.

I

De todas as Graças que crescem sobre o trono de Vênus, a mais tímida e ardilosa é essa donzela que os mortais chamam Felicidade. Nenhuma é tão avidamente procurada; nenhuma é tão difícil de conseguir. De fato, somente os santos e os mártires, normalmente desconhecidos pela humanidade, a encontraram; alcançaram-na fundindo neles mesmos o sentido do Ego com o aço incandescente da meditação, dissolvendo-se naquele divino oceano de Percepção cuja espuma é calma e de perfeita felicidade.
Para os outros, a Felicidade surge somente de forma casual; quando menos é procurada, talvez apareça. Buscareis sem encontrá-la; perguntareis, e não obtereis resposta; golpeareis, e não se abrirá diante de vós. A Felicidade é sempre um acidente divino. Não é uma qualidade definida; é a plenitude das circunstâncias. É inútil mesclar seus ingredientes; na vida, os experimentos que a produziram no passado podem se repetir indefinidamente, com destreza e variedade infinitas, em vão.

Que uma entidade tão metafísica possa se produzir em um momento, e não por meio da sabedoria ou de uma fórmula mágica, mas por uma simples erva, parece algo mais do que um conto de fadas. O mais sábio dos homens não pode aumentar a felicidade de outros, ainda que lhes conceda juventude, beleza, abundância, saúde, juízo e amor; o mais baixo vilão, tremendo em farrapos, destituído, doente, velho, covarde, estúpido, um mero brejo de cobiça, pode tirá-la rapidamente como um sopro. A coisa é tão paradoxal quanto a vida e tão mística quanto a morte.

Olha esse reluzente montinho de cristais! Eles são Cloridrato de Cocaína. Para o geólogo parecerá mica; para mim, o alpinista, elas são como flocos de neve, alados e resplandecentes, que florescem especialmente ali onde as rochas sobressaem do gelo das fendas das geleiras e há aqueles que o vento e o sol beijaram e se converteram em espectros. Para aqueles que não conhecem as grandes montanhas, eles podem sugerir a neve que centelha entre as árvores em casulos de luz e brilho. O reino das fadas possui tais jóias. Para aquele que as prove em seu nariz – seus acólitos e escravos – devem parecer como o orvalho do alento congelado na barba de algum grande demônio da Imensidão pelo frio.

Nunca houve um elixir mágico tão instantâneo quanto à cocaína. Dê isso não importa a quem, escolha o último fracassado da terra; deixa que ele sofra todas as torturas da enfermidade; arrebata dele toda a esperança, fé e amor. Então olha, observa o dorso da mão cansada, a pele descolorida e enrugada, talvez inchada por algum eczema agonizante, talvez putrefata por alguma chaga maligna. Que coloque sobre ela essa neve reluzente, só uns poucos grãos, um montinho de pó estrelado. O braço consumido se levanta lentamente até a cabeça, que é pouco mais que uma caveira; a respiração débil absorve esse pó radiante. Agora devemos esperar. Um minuto, talvez cinco.

Então sucede o milagre dos milagres, tão certo quanto à morte, mas tão imperioso como a vida; algo ainda mais milagroso, por ser tão súbito, tão distante do curso normal da evolução. Natura non facit saltum – a natureza nunca dá um salto. Certo, e, por conseguinte, este milagre parece contra a natureza.

A melancolia desaparece; os olhos brilham; a boca triste sorri. Quase retorna o vigor viril, ou parece retornar. Quanto menos acodem a fé, a esperança e o amor para a dança; tudo o que foi perdido é encontrado.

O homem é feliz.

Para um indivíduo a droga pode trazer vivacidade, para outro, languidez; a outro força criativa, a outro energia incansável, a outro encanto e a outro mais concupiscência. Mas cada um é feliz a sua maneira. Pensa nisso! – tão simples e tão transcendental! O homem é feliz!

Viajei por cada canto do mundo; vi tais maravilhas na Natureza que minha pena ainda crepita quando tento retratá-las; vi muitos milagres que surgiram do gênio do homem; mas nunca vi uma maravilha como essa.

II

Não há uma escola de filósofos, fria e cínica, que considera Deus um enganador? Que pensa que Ele se satisfaz no desprezo da insignificância de suas criaturas? Deveriam basear suas teses na cocaína! Aqui jaz uma amargura, uma ironia e uma crueldade inefáveis. Este presente da felicidade repentina e segura é dado para atormentar na tentação. A história de Job não contém nenhum traço tão azedo. O que seria mais friamente odioso, uma cena de espírito mais desalmado, que oferecer tal dádiva e dizer “Não deveis usar”? Não poderiam nos deixar afrontar as misérias da vida, más como são, sem esta angústia primordial de conhecer o gozo perfeito ao nosso alcance, e o preço dessa alegria multiplicado por dez de nossa angústia?

A felicidade da cocaína não é passiva ou serena como a das bestas; é consciente de si mesma. Diz ao homem o que ele é, e o que poderia chegar a ser; oferece ao homem a semelhança da divindade, ainda que ele saiba que é um verme. Desperta um descontente tão agudo que nunca voltará a dormir. Cria fome. Dá a cocaína para um homem já sábio, instruído no mundo e de força moral, a um homem com inteligência e autodomínio. Se realmente é dono de si mesmo, não lhe fará nenhum dano. Saberá que é uma armadilha; ele terá cuidado em repetir tais experimentos como poderia fazer; e possivelmente o vislumbre de seu objetivo pode inclusive lhe incentivar em seu logro por aqueles meios que Deus designou para Seus santos.

Mas dá isso ao estúpido, ao homem indulgente consigo mesmo, ao que está entediado – para o homem comum, em uma palavra – e ele está perdido. Ele dirá, com lógica perfeita: “Isto é o que Eu quero”. Ele não sabe nada, nem poderia saber, sobre o caminho verdadeiro; e o caminho falso é o único que ele vê. Necessita de cocaína, e toma outra vez e outra vez. O contraste entre sua vida de larva e sua vida de borboleta é demasiado amargo para que sua alma pouco filosófica suporte; ele se recusa em tomar o enxofre com o melaço.

E dessa maneira ele já não pode tolerar os momentos de infelicidade, ou seja, da vida normal, porque é assim como agora ele a considera. Os intervalos entre seus prazeres diminuem.

E ai! O poder da droga diminui a passos aterradores. As doses aumentam; os prazeres diminuem. Os efeitos secundários, invisíveis no princípio, se apresentam; são como diabos com tridentes flamejantes em suas mãos.

Usar um pouco da droga não traz reações perceptíveis em um homem saudável. Ele vai para a cama quando der a hora, dorme bem e acorda descansado. Os índios sul-americanos mascam essa droga em sua forma primitiva durante sua marcha a pé e conseguem prodígios desafiando a fome, a sede e o cansaço. Mas a utilizam somente como último recurso; afinal, um descanso prolongado e comida abundante permitem que o corpo se recupere. Também ocorre que os selvagens, diferentes da maioria dos habitantes das cidades, possuem mais força e senso moral.

Pode-se dizer o mesmo de chineses e hindus sobre o uso do ópio. Todos o utilizam, e só em raros casos seu uso se converte em vício. Para eles é como o nosso tabaco.
Mas quem abusa da cocaína por prazer, logo ouve a voz da natureza; e se não a escuta os nervos se cansam do estímulo constante, necessitam de descanso e de alimento. Existe um ponto no qual o cavalo esgotado não responde a nenhum chicote e a nenhum estímulo. Tropeça, cai e arqueja seu último suspiro.

Assim perece o escravo da cocaína. Com cada nervo clamando, tudo o que pode fazer é renovar o golpe do veneno. O efeito farmacêutico acabou; mas o efeito tóxico se acumula. Os nervos enlouquecem. A vítima começa a ter alucinações. “Olha! Há um gato cinza naquela cadeira. Não havia dito nada, mas esteve aí o tempo todo.”

Ou então aparecem ratos. “Encanta-me vê-los subindo pelas cortinas. Ah, sim! Já sei que não são ratos de verdade. Ainda que esse aí no chão seja real. Uma vez quase o matei. Esse é o que vi primeiro; é um rato de verdade. No princípio o vi no peitoril da janela numa noite.”

Tal é a mania dele. E o prazer passa logo, seguido por seu contrário, como Eros por Anteros.

“Oh, não! Nunca se aproximaram tanto”. Passam alguns dias e já se arrastam sobre a pele, roendo intoleravelmente, sem parar, repugnantes e inexoráveis.

É desnecessário descrever o final, prolongado como este pode ser, porque apesar da desconcertante destreza desenvolvida pelo desejo da droga, o estado demente paralisa o paciente. Sua abstinência durante uma temporada, muitas vezes forçada, está longe de apaziguar os sintomas físicos e mentais. Então ele procura uma nova provisão da droga, e com zelo decuplicado o maníaco, tomando o bocado entre os dentes, galopa pela margem negra da morte.

Todos os tormentos da condenação vêm antes que essa morte chegue. O sentido do tempo está destruído, de modo que uma hora de abstinência pode reservar mais horrores que um século de dor ligado ao tempo e ao espaço.

Os psicólogos pouco entendem de como o ciclo fisiológico da vida e a normalidade do cérebro tornam a existência insignificante tanto para o bom como para o mau. Para compreender isso priva-se um dia ou dois; vê como a vida arrasta uma dor subconsciente constante. Com fome de droga este efeito se multiplica por mil. O tempo mesmo é abolido. O verdadeiro inferno eterno metafísico está realmente presente na consciência que perdeu seus limites sem encontrar Aquele que não tem limite.

III

Grande parte disso já é bem sabida; o senso dramático me força a enfatizar o que já se conhece comumente, a causa da dimensão da tragédia – ou da comédia, se tivéssemos essa capacidade de nos distanciarmos do humano que atribuímos somente aos homens grandiosos, aos Aristófanes, os Shakespeares, os Balzacs, os Rabelais, os Voltaires, os Byrons, esse poder que faz os poetas ora compassivos das aflições dos homens, ora alegremente depreciativos de seu desconcerto.

 Mas deveria destacar mais sabiamente o fato de que os melhores homens podem utilizar essa droga – e muitas outras – com benefícios para si mesmos e para a humanidade. Somente a usariam para realizar grandes trabalhos que não poderiam fazer sem ela, como os índios de quem falava acima. Cito Herbert Spencer como exemplo, que tomava morfina, nunca excedendo certa dose prescrita. Wilkie Collins também superou a agonia de sua gota reumática com láudano e nos deu obras mestras não superadas.

Alguns foram demasiadamente longe. Baudelaire se crucificou, em corpo e mente, em seu amor pela humanidade; Verlaine se converteu no final em escravo, quando havia sido tanto tempo o amo. Francis Thompson se matou com ópio, da mesma forma que Edgar Allan Poe. James Thomson fez o mesmo com o álcool. Os casos de De Quincey e H.G. Ludlow são menores, mas similares, usando respectivamente láudano e haxixe. O grande Paracelso, que descobriu o hidrogênio, o zinco e o ópio, empregou deliberadamente o álcool como excitante, compensando-o com exercícios físicos violentos, para fazer aflorar as energias de sua mente.

Coleridge deu o melhor de si sob influência dos efeitos do ópio e devemos a perda do final de Kubla Khan à interrupção de um “importuno homem de Porlock”, maldito seja para sempre na história da raça humana!

IV

Considerada a dívida da humanidade para com o ópio. Estaria ele absolvido pela morte de alguns perdidos devido ao seu abuso?

A importância deste ensaio firma-se na discussão da pergunta prática: As drogas deveriam ser acessíveis ao público?

Aqui me detenho brevemente para pedir a indulgência do povo americano. Vejo-me obrigado a defender um ponto de vista surpreendente e impopular. Sou compelido em proferir certas verdades terríveis. Estou na posição pouco invejável de quem pede para que os outros fechem os olhos ao particular para que assim possam visualizar o geral.
Creio que em matéria de legislação, a América está procedendo em geral sobre uma teoria inteiramente falsa. Creio que a moralidade construtiva é melhor que a repressão. Creio que a democracia, mais do que qualquer outra forma de governo, deve confiar nas pessoas, como especificamente finge fazer.

Agora me parece oportuno usar táticas melhores e mais convincentes para atacar a teoria contrária em seu ponto mais forte.

Para isto deveria ser mostrado que nem mesmo no caso mais discutível está um governo justificado em restringir o uso, como se essa fosse a causa do abuso; ou, admitindo esta justificação, discutamos sobre sua utilidade.

Assim à questão: as drogas “que produzem hábito” deveriam ser acessíveis ao público?
A questão é de interesse imediato, porque o admitido fracasso da lei Harrison deu origem a uma nova proposição: uma que faz pior.

Não argumentarei aqui sobre a magnífica tese da liberdade. Os homens livres decidiram há muito tempo. Quem manterá que o voluntário sacrifício da vida de Cristo foi imoral porque privou o estado de um útil contribuinte?

Não; a vida de um homem pertence a ele mesmo, e ele tem direito de destruí-la como queira, a menos que ele se intrometa ostensivamente nos privilégios de seus vizinhos.
Mas justamente essa é a questão. Nos tempos modernos a comunidade inteira é nossa vizinha e não devemos prejudicá-la. Muito bem; então há prós e contras e um equilíbrio a determinar.

Na América a idéia da proibição de todas as coisas é transmitida majoritariamente por periódicos histéricos, até um extremo fanático, “sensação a qualquer custo até domingo” é o equivalente na maioria das salas editoriais da alegada ordem alemã para capturar Calais. Conseqüentemente os perigos de todas e cada uma das coisas são celebradas ditirambicamente pelos Coribantes da imprensa, sendo a proibição o único remédio. O Sr “A” dispara um revolver contra o Sr “B”; remédio: a lei de Sullivan. Na prática isto funciona bem, porque a lei não se faz cumprir contra o chefe de família que tem um revolver para se proteger, mas é uma arma prática contra o gangster e economiza o trabalho da polícia em provar a intenção criminosa.

Mas essa é a idéia incorreta. Recentemente um homem disparou um rifle equipado com silenciador Maxim contra sua família e contra si mesmo. O remédio: uma lei para proibir os silenciadores Maxim! Sem perceber que se o homem não tivesse arma alguma ele teria estrangulado sua família com as próprias mãos.

 Os reformadores americanos parecem não ter idéia de que, em qualquer época ou com respeito a qualquer coisa, que o único remédio para o errado é o certo; que a educação moral, o autodomínio, os bons modos, salvarão o mundo; e que a legislação não é simplesmente uma coisa inútil, e sim um vapor sufocante.

Além disso, um excesso de legislação ocasiona a derrota de seus próprios fins. Criminaliza a população inteira e converte todos em policiais e delatores. A saúde moral do povo assim está arruinada para sempre; somente a revolução pode salva-lo.

Agora, na América, a lei de Harrison faz teoricamente impossível para o leigo, difícil inclusive para o médico, obter “drogas narcóticas”. Mas quase cada lavanderia chinesa é um centro de distribuição de cocaína, morfina e heroína. Negros e vendedores andarilhos também fazem um comércio ambulante. Alguns calculam que uma a cada cinco pessoas em Manhattan é viciada em uma ou outra dessas drogas. Apenas posso crer nesta estimativa, apesar de que a busca por distração é maníaca entre essas pessoas que tem tão pouco apreço pela arte, pela literatura ou pela música, pessoas que não têm nenhum dos recursos que os povos de outras nações possuem em suas mentes cultivadas.

V

Era uma pessoa muito cansada, nessa tarde calorosa de verão de 1909, a que perambulava pelo Logroño. Até o rio parecia preguiçoso demais para fluir, e se estancava em piscinas com a língua para fora. O ar vislumbrava suavemente; nas cidades os terraços dos cafés estavam cheios de gente. Não tinham nada para fazer e estavam seriamente determinados a isso. Sorviam o vinho áspero dos Pirineus ou um Riojo do sul bem aguado, ou brincavam com taças de cerveja pálida. Se algum deles tivesse lido o discurso do General O’Ryan ao soldado americano, pensariam que sua mente estava afetada.

“O álcool, seja cerveja, vinho, uísque, ou qualquer outro, engendra ineficácia. Enquanto afeta de distintas formas aos homens, seus resultados são iguais por deixar os homens fora de seu estado normal por algum tempo. Alguns se tornam descuidados, outros briguentos. Alguns se alvoroçam, outros se indispõem, alguns adormecem, outros têm suas paixões estimuladas em grandes proporções”.

No que diz respeito a nós, estávamos em marcha para Madrid. Obrigaram-nos a nos apressar. Uma semana, ou um mês, ou um ano no máximo, e nós temos que deixar Logroño em obediência ao chamado do trompete de dever.

De qualquer modo, decidimos esquecê-lo por hora. Sentamo-nos, trocamos pontos de vista e experiências com os provincianos. Diante do fato de que nos apressávamos, nos tomaram por anarquistas e lhes aliviou nossa explicação de que éramos “ingleses loucos”. E estávamos todos felizes juntos; e eu ainda estou me chutando como um louco por ter ido até Madrid.

  Na foto ao lado, Aleister Crowley; poeta, filósofo e um dos ocultistas mais importantes do século XX.

Se alguém está em um jantar em Londres ou em Nova York, se funde num abismo de aborrecimento. Não há tema de interesse geral, não há engenho; é como esperar um trem. Em Londres um indivíduo se sobrepõe ao ambiente bebendo uma garrafa de champanhe o mais rapidamente possível; em Nova York exageram nos coquetéis. Os vinhos ligeiros e as cervejas da Europa, tomados com moderação, não servem de nada; não há tempo de ser feliz, assim devem se excitar. Jantando só ou com amigos, em contraste com o ambiente de uma festa, alguém pode estar inteiramente à vontade com Burgundy ou Bordeaux. Tem-se toda a noite adiante para ser feliz e não é necessário se apressar. Mas o nova-iorquino normal não tem tempo nem sequer para uma ceia! Quase lamenta a ora em que seu escritório fecha. Seu cérebro, contudo está ocupado com seus planos. Quando deseja “prazer”, calcula que pode se permitir por meia hora somente. Tem que despejar garganta abaixo os mais fortes licores em velocidade máxima.

Agora imagine esse homem – ou essa mulher – com um leve impedimento: seu tempo disponível é diminuído. Já não desperdiça nem dez minutos na obtenção de “prazer”, ou talvez não se atreva a beber abertamente na frente de outras pessoas. Pois bem, seu remédio é simples; pode conseguir a ação imediata da cocaína. Não há odor, e pode ser tão discreto como qualquer ancião eclesiástico poderia desejar.

O mal da civilização é a vida intensa, que exige estimulação intensa. A natureza humana requer prazer; os prazeres saudáveis requerem ócio; devemos escolher entre a intoxicação e a sesta. Não há viciados em cocaína em Logroño.

Por outro lado, na ausência de uma atmosfera, a vida exige uma conversação; devemos escolher entre a intoxicação e o cultivo da mente. Não há viciados entre as pessoas preocupadas em primeiro lugar com a ciência, a filosofia, a arte e a literatura.

VI

Todavia, concedamos as reivindicações dos proibidores. Admitamos o argumento sustentado pela polícia de que a cocaína e outras drogas são usadas por criminosos que de outra forma não teriam sangue frio para agir. Também se afirma que os efeitos da droga são tão mortais que os ladrões mais astutos rapidamente perdem suas habilidades. Por todos os céus, então que montem armazéns onde se possa conseguir cocaína grátis!

Você não pode curar um viciado; você não pode fazer dele um cidadão útil. Ele nunca foi um bom cidadão, se o fosse não cairia na escravidão do vício. Se o reforma temporariamente, com grande custo, risco e problemas, todo o trabalho desaparecerá como uma bruma matinal quando ele encarar a próxima tentação. O remédio apropriado é deixar que siga seu caminho e que vá para o diabo. Em vez de menores quantidades da droga, dá a ele mais droga e acaba com ele. Seu destino será uma advertência para seus vizinhos e em um ano ou dois as pessoas que o conheceram terão um pouco mais de senso para evitar o perigo. Os que não o tenham, deixe que morram também e salva o estado. Os débeis morais são um perigo para a sociedade, seja qual for a linha que sigam suas faltas. Se eles são tão amáveis enquanto se matam seria um crime interferir.
Direis que enquanto estas pessoas vão se matando elas vão também causando desordem. Talvez, mas elas já estão fazendo isso agora.

A proibição criou um tráfico criminoso subterrâneo, como sempre acontece; e os males que advém disso são imensuráveis. Milhares de cidadãos estão associados para derrotar a lei, e verdadeiramente a própria lei os suborna para fazerem isso, pois os lucros do comércio ilícito são enormes e quanto mais restrita é a proibição, mais irracionalmente grandes são esses lucros. Fazer isso pode erradicar o uso de lenços de seda e as pessoas dirão: “pois muito bem, usaremos o linho”. Mas o cocainômano deseja cocaína e não podereis dissuadi-lo com sais de Epsom. Por outro lado, sua mente perdeu toda proporção; pagará qualquer coisa por sua droga; ele nunca dirá “não posso pagar isso”; e se o preço é alto ele furtará, roubará e matará para consegui-la. Volto a dizer: não se pode curar um viciado; tudo o que for feito para evitar que consigam a droga resultará em uma classe de criminosos astutos e perigosos, mesmo que os prendam todos, algum deles terá melhorado?

Enquanto tenham lucros tão grandes (de mil a dois mil por cento) ao alcance dos distribuidores secretos, será de interesse deles criar novas vítimas. E os benefícios na atualidade valeriam minha ida e volta de primeira classe para Londres para contrabandear não mais cocaína do que aquela que cabe no forro do meu sobretudo! Com todos os gastos pagos e com uma bela quantia em dinheiro no banco ao final da viagem! E ainda com toda a lei, espiões e outros, eu poderia vender meu material no subúrbio com um risco mínimo em uma só noite.

Outro ponto é este. A proibição não pode ser levada ao extremo. É impossível, em última instância, tirar as drogas dos médicos. Agora os médicos, mais que qualquer outra classe, são viciados; e também há muitos que traficarão drogas motivados pelo dinheiro ou pelo poder. Se você possui uma provisão da droga, você é capaz de ser o amo do corpo e da alma de qualquer pessoa que necessite dela.

As pessoas não entendem que uma droga, para seu escravo, é mais valiosa que o ouro ou os diamantes; uma mulher virtuosa pode estar por cima dos rubis, mas a experiência médica nos diz que não há mulher virtuosa necessitada de droga que não se prostitua para um maltrapilho em troca de uma cheirada.

E se for verdade que um quinto da população dessa pequena e incorreta ilha usa alguma droga, então teremos uns tempos muito vivos.

O disparate do argumento proibicionista é demonstrado pela experiência de Londres e de outras cidades européias. Em Londres qualquer pai de família, ou pessoa de aspecto respeitável, pode comprar droga tão facilmente como se fosse queijo; e Londres não está cheia de maníacos delirantes, cheirando cocaína pelas esquinas, nos intervalos produzidos entre arrombamentos, violações, incêndios provocados, assassinatos, estelionatos e crimes de alta traição, como nos asseguram que deve ser o caso quando se permite amavelmente que um povo livre exercite um pouco de sua liberdade.
Ou, se o argumento proibicionista não é absurdo, então é um comentário sobre o nível moral do povo dos Estados Unidos que teria ofendido justamente aos diabos de Gadara após terem entrado nos porcos.

Não estou aqui para protestar em seu nome; observando a justiça da observação, continuo dizendo que a proibição não é nenhum remédio. O remédio está em dar para as pessoas algo sobre o que possam pensar, em desenvolver suas mentes, em preenchê-las de ambições mais além dos dólares, em instaurar uma pauta de logro que fosse medida em termo de realidades eternas. Em uma palavra, em educá-las.
Se isto parece impossível, felicitações; é outro argumento para encorajá-los a tomarem cocaína.

Fonte: http://www.mortesubita.org