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quinta-feira, 24 de junho de 2010

proclamation sans prétention II - Tiago Mine


Meus olhos
embebidos de carcere
ejaculam sangue
na intelectual latrina dos Reis
E costurados a rabicós
com tripas suínas
que de verdades
não vimos o inverno passar...
Preferimos o destilado purulento
servidos a maneira dos anjos
em taças de areia e mel.

Brindemos sem últimos goles!

O jarro cerebral espatifou-se
diante dos homens:
E não haverá mais cegos
que línguas sem paladar;
Não há mais sede nem frio,
Pois hoje
deus
está nu.

de Proclamação sem pretenção, livro de edição independente do poeta Tiago Mine Vieira.



sábado, 19 de junho de 2010

Proclamation sans prétention

A ignorância é ouro!
Venham junto a nós vagabundos alados:
brindar nossas asas toscas
entre palmas abundantes
de um feliz entretenimento;
e sob as vaias e urros
deitar-se abertamente
rendido sobre o chão
atapetando-se aos pés
dos inglórios espectadores -
como uma ingênua formiga
ignorante à própria infortuna,
para atenuar a culpa
do inocente enforcado
falado ao peso de sua
autoexistência.

Extraído de Proclamação sem pretensão (2007),  livro do poeta Tiago Mine Vieira

segunda-feira, 14 de junho de 2010

DAS DIURNAS - José de Carvalho

O Gouveia, jogando uma garrafa de uísque pro alto,
ensaia uma apresentação.
– A velha ardência pelo Show Bussines.
Passou a noite urrando
com uma fêmea de grande porte, um e oitenta e dois
De família boa.
A mãe foi stripper e a avó dançarina
num clube do Largo da Batata. 
O que, pelo Almeida,
só reforçaria um ménage.
Teria um valor de cúmplice, coisa de amigos.
O broto não quis.
Preferiu a animalidade nua e crua
huum..., huum..., huum...do Gouveia.
Conversa vai, conversa vem...
Desviamos do assunto,
pegamos um Praça Ramos.
Descemos no Largo do Arouche.
O Almeida imitava cão de Espala
e latia um Allegro. Agudo que nem o diabo.
Por trás das mulheres, que gritavam à toa...
Compramos uns secos e molhados
na rua Aurora. 
E bolamos a pedra filosofal do discurso.
De pronto,
o Almeida deu o mote: “Natureza viva, coisa pura”.
O que em nada
incomodou o Gouveia
absorto em alguma questão pornoerótica.

(Texto extraído do Buquê de José de Carvalho, poeta e amigo dos bons)

José de Carvalho é poeta e fotógrafo, autor dos livros Destas Águas e Buquê.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

meu sono insone - Neomisia Silvestre

meus olhos saltados pro mundo falam por mim. minha perna de joelho mole quer me dizer algo, eu sei. o meu riso de boca escancarada deve soltar meias palavras. o meu coração, ah, este sim, tolo completo, revela tudo. me desnuda frente ao acaso, me obriga a olhares de incerteza e falas pré-conceituadas, osas. e me deixo. de uns tempos para cá, não ligo, mas deixo a ligação cair até o último chamar. regredi esfumaçada. avancei. avancei demais. recuei quando é dever dos homens seguir. é, normalmente me deixo levar por um sentir bom, mas que expõe e fragiliza. sim, palavra antes dita, mas perfeita palavra. e viro cristal e pele em vida e abismo à frente. eu quero despencar, despejar ali o que me sobra e o que me falta. me falta um pedaço. cadê aquela outra perna reserva? antes não ter notícias. quiçá me privar do conhecimento fosse melhor à minha falta. e eu vivo incerta de tudo ao meu redor. metamorfoseando-me aos poucos. já não sei que sou, que serei daqui um tempo. e que tempo é este? egoísta tempo. egoísta eu, que quero o perto no meu tempo passante sendo o ser livre que se é. e minha imaginação me bota um existir platônico e leocadiano de ser: não sou. gosto dos personagens de uma literatura não existente. eu não existo. nada existe. e lembro todos os dias de existir desde que tomei o conhecimento. é, talvez eu tenha tomado um porre de conhecimento. ele vive aqui martelando cuca, me tirando o sério, me entristecendo dias, me enchendo horas de alegria precoce. das vagas lembranças restaram livros, doces, músicas que ninguém ouve e palavras inventadas sem a veracidade cruel dos aurélios. minhas lágrimas revelam um sofrer de quem rumina dores por um sofrer mais poético. e sem saber, poemas me são escritos e coloridos.
(Neomisia Silvestre)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

by Mario Bakuna

me salvo agora
com primeira tinta da aurora

me salvo agora
as quatro da manhã
com a s mãos cheias de delicadeza
diante da inútil projeção de amar

acordarei
relutante ao vício onírico
sintoma demasiado de querer a solidão
não aquela em que dou
um instante a criação

outra
há que se faz pérola no centro da ostra
banhada de porre e saudade já que o amor se come assim
( mário bakuna)

 

terça-feira, 27 de abril de 2010

o pó das coisas

Deu início à bagunça. Há tempos estava lá amontoada num canto. E saiu tanto pó, tanta coisa, que resolveu fuçar mais. Revirou tudo sem procurar nada. Encontrou história, de vida. Um agregado de lembranças, ali naquele mesmo lugar: o passado. Definitivamente não vivia tal tempo, estava sempre ausente no presente. Rememora tudo. Data e sobrenome. Vestimenta e expressão. Cor e palavra. Topou com a vitrola antiga. Empoeirada. Atchim. Como tantas outras coisas que deixou criar pó quando precisava apenas soprar. Avistou também um disco, aquele clássico Concierto. Deixou-se ouvir. Cada acorde. O primeiro foi direto no estômago, doeu. Percorreu veias, passou pelo coração e estacionou na memória. Ali reviveu momentos. Apoiou levemente a cabeça no sofá vermelho, desses já furados por netos e gatos. O compacto seguiu baixinho nas paredes da casa de silêncio cômodo, possível ouvir o pulsar da agulha. Toca-dor a compartilhar espaço com móveis doutra época. Permitiu-se passear acompanhando cada volta negra, brilhosa. Movimentos circulares. Bons ares aqueles. Sorriu. Episódio engraçado aquele baile. Esticou corpo, avistou o mesmo sapato pisado no canto do quarto, repousando. Como agora o par descansava, em paz. A nota mudou e levou rápido à festa surpresa. Os amigos faziam perceber a velhice. Escolhas pretéritas suas. Roupas e decoração. E que poder aquela música tinha? Perdida entre todas as datas. Microscópicas. Lembrou daquele passeio que fez absolutamente nada o dia inteiro, o melhor. O que fizera dos dias, pó? Sentiu ferrugem corroer certas lembranças. Chorou. Deixou mesmo ir embora, não se despediu. Viu a criança nascer. Sorriu seu primeiro riso. E que poder de transportação o da trilha. Aquela tarde virou seis, sete, oito da noite. Vizinhos não ouviam nada, nunca. Naftalina. Tanta gente bonita ficar feia, tanta gente fraca tornar forte. No presente o tempo corre mais rápido. Tempo atrás nada era assim. Ah, o meu tempo de guerra pelo ideal. Saudade. Aprisiona-se no instante musical. Aquele seu piano cantou história. Não restara ninguém pra contar. Adormeceu no pó das coisas.

Neomisia Silvestre
suscitas.blogspot.com

by Mario Bakuna


o  que
           pensa um maníaco com a navalha em riste?

serão tirados todo o brilho desses olhos arrogantes
que em vida não fez nada mais
do que durar a carne oca.
 viver

   é diferente

é como?
                       cadê o homem com pássaros na imaginação...?

e que se fosse deixado todo espectro de virtú

                                                                     beethoven tocando nos aparelhos da pop art 
picaretas universitários nunca subirão as escadas de Viêna

                                                                                   e tão pouco prestarão atencão à alguma melodia
    por estarem comovidos demais por cocaína e whisky
durar durar durar
                          e me disseram que isso era viver
                                                                              ( Mário Bakuna )

quantos corpos
 debruçados sobre a noite
encostam na carne vã 
sim
quando lembrei de ter lembrança 
era você.
 essa ultima imagem penetrando no meu sonho lúcido
 quando subir minha carne esse desejo
prometo que não te procuro.
                                                                               
( Mário Bakuna )