Primeiro disco de Patti Smith, Horses (1975)
Encontrara alívio em Arthur Rimbaud, com quem havia deparado em uma banca de livros do outro lado da rodoviária de Filadélfia quando tinha dezesseis anos. Seu olhar arrogante me encarou na capa de Illuminations. Ele possuia uma inteligência irreverente que me acendera, e tomei-o por um compatriota, um parente, e até um amor secreto. Sem ter os 99 centavos para comprar o livro, surrupiei-o.
Rimbaud tinha as chaves para uma linguagem mística que devorei mesmo sem ainda ser capaz de decifrar. Meu amor não correspondido por ele era tão real para mim quanto qualquer coisa que eu já houvesse experimentado. Na gráfica onde eu trabalhara com um grupo de mulheres duras e analfabetas, fui perseguida por causa dele. Desconfiando que eu fosse comunista por ler um livro em língua estrangeira, elas me ameaçaram no banheiro, incitando-me a denuncia-lo. Ele se tornou meu arcanjo, livrando-me dos horrores mundanos da vida fabril. Suas mãos haviam esculpido um manual do céu e nelas rapidamente me agarrei. Conhecê-lo trouxera insolência aos meus passos e isso não podia ser tirado de mim. Joguei meu exemplar de Illuminations em uma mala xadrez. Nós fugiríamos juntos.
(Patti Smith)
A performer e poeta Patti Smith nasceu em 1946, em Chicago. Seu disco Horses (1975), tido como precursor do punk, foi considerado pela revista Time um dos cem melhores álbuns de todos os tempos. Patti também publicou livros de poesia como Babel e Auguries of Innocence. Em 1973, expôs seus desenhos pela primeira vez, e, em 2008, a Fundação Cartier de Paris apresentou uma grande mostra da artista.
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
terça-feira, 3 de agosto de 2010
O Barco Bêbado
O poeta, aventureiro e negociante de armas francês Arthur Rimbaud (1854-1891)
Quando eu já descia Rios impassíveis,
Não mais me senti preso a guias e galés:
Pels-vermelha a gritar os encrivaram, críveis,
Todos crus alvos nus nos totens de pincéis.
Em nada me importava quem eu carregara
Com o trigo flamengo ou o algodão inglês.
Como toda a zoada com os guias finara,
Rios me liberaram escolher fluxo e vez.
Nos clamores, ímãs e furor das marés,
Eu, inverno, mais surdo que mentes infantes,
Eu corri! E as Penínsulas, soltos os pés,
Nunca se descarnaram em caos mais triunfantes.
Tempestade bendisse minhas albas marinhas.
Bem mais leve que rolha eu dancei nos torós
Que se diz tornear norte das vitiminhas,
Dez noites, sem buscar o olhar dos faróis!
Mais doce que maçãs em boca de criança,
Água verde invadiu-me a carcaça de lei
E de vômito e vinhos azuis, gosma mansa
Me lavou, desprovido de leme e arpão, sei.
Desde então, é que eu mergulhei no Poema
Do Mar, infusão de astros, um lácteo mar,
Devorando os verde-anis; onde, clara gema,
Arrebatado, um corpo afunda a ensimesmar;
Onde, adensando azuis num só golpe, delírios
E ritmos lentos, rutilamento a se por,
Mais fortes que o álcool ou a lira que mire-os,
Fermentam os rubores amargos do amor!
Sei desses céus rasgando clarões e das trombas,
Das ressacas, correntes: do entardecer,
Da exaltada Alba, qual turba de pombas,
E já vi o que o homem pensou tido ver!
Vi o cadente sol, bolor de horror místico,
Com luz roxa de raio em feixes antigos,
Como atores de velho drama artístico
Ondas levando longe o tremor de postigos!
Sonhei com verde noite e deslumbrantes neves,
A beijar lentamente os olhos do mar,
Com a corrente de espantosas seivas leves,
Amarela alba azul de fósforo a cantar!
Assisti, mês a mês, como vaca em histerias,
À potência do mar recifes violentar,
Sem supor que os pés luminares de Marias
Focinhos de Oceanos pudessem assentar!
Tropecei, vós sabeis, em Flóridas incríveis
Mescla flor e olhos de pantera em pelo
De homens! Arcos-íris, rédeas invencíveis
No horizonte mar de rebanho amarelo!
Eu vi fermentarem nassas, mangues enormes
Onde apodrece em juncos todo um Leviatão!
Umas síncopes d’água em ares uniformes,
E lonjura em cataratas de furacão!
Gelos, sóis prata, ondas nácar, céus em brasa!
E profundos naufrágios em golfos de breu
Onde grandes serpentes que percevejo arrasa
Caem, de torto lenho, em negror que fedeu!
Eu queria expor às crianças o ouro
De onda azul, áureos peixes, peixes que cantam.
- No embalo do buquê de espumas em coro,
Inefáveis ventos meu corpo levantam.
Às vezes, mártir tonto dos pólos e zonas,
Soluço do mar me fazia fedelho,
Jogava-me flores carvão e amarelonas
E eu me mantinha fêmea de joelhos...
Pré-ilha, rebocando lamentos, ruídos
E fezes de gralhas com olhos cor de dentes.
E eu já vagueava, e em meus fios puídos
Afogados vinham, marcha a ré, dormentes!
Pois eu, barco entre pêlos, perdido nas ansas,
Que o furacão lançou num ar sem ave ou vôo,
De quem os Monitores, veleiros das Hansas
Não pescariam o casco que a água embriagou;
Livre, entre fumos, sob brumas violetas,
Eu que rasgava céu rubro de murado
Que contém, raro glacê dos bons poetas,
Uns líquenes de sol e muco azulado,
Que corri, manchado por luar elétrico,
Prancha louca, entre alas de hipocampos breu,
Quando os julhos faziam lascar-se tétrico
Em ardentes funis o ultramar do céu;
Eu que tremia, ouvindo a cinqüenta léguas
O cio de Behemots e Maelstroms eretos,
Fiandeiro eterno de azuladas tréguas,
Evoco da Europa os velhos parapetos!
Eu vi arquipélagos astrais! e vi ilhas
Cujos céus delirantes se abrem ao que for:
- Esse é o negror sem fim onde dormes, te empilhas,
Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor? -
Ah, sim, muito chorei! Pungentes são Albores.
Toda lua é atroz e todo sol é sal:
O acre amor me inflou de álcool e torpores.
Que esta quilha exploda! Seja mar afinal!
Se eu desejo água de Europa, é sarjeta
Negra e fria onde, ocaso em bálsamo de ensaio,
Um menino agachado, em só tristeza, meta
Um barco que trema qual borboleta em maio.
Não posso mais, no langor de vocês, marolas,
Me juntar a esses barcos que carregam algodões,
Nem traspassar poder, flâmulas, bandeirolas,
Nem vagar sob o olhar horrível dos pontões.
(O Barco Bêbado - Arthur Rimbaud)
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Uma Temporada no Inferno - Rimbaud
Noite de Inferno
Bebi um grande gole de veneno. - Três vezes bem-dito o conselho
que até mim chegou! Abrasam-se-me as entranhas. A violência do
veneno convulsiona-me os membros, desfigura-me, atira-me ao solo.
Morro de sede, sufoco, não posso gritar. É o inferno, a condenação
eterna! Olhai como o fogo cresce. Queimo como devo queimar! Sai,
demônio!
Havia entrevisto a conversão ao bem e à felicidade, a salvação.
Posso descrever a visão? O ar do inferno não tolera hinos! Eram
milhões de criaturas encantadoras, um suave concerto espiritual, a
força e a paz, as nobres ambições, que sei eu?
As nobres ambições!
E é ainda a vida! - Se a condenação é eterna! Um homem que quer
mutilar-se está condenado, não é assim? Acredito-me no inferno,
logo estou nele. É o cumprimento do catecismo. Sou escravo de meu
batismo. Pais, fizestes a minha desgraça e a vossa! Pobre inocente! -
O inferno nada pode contra os pagãos. - É a vida. Mais tarde, as
delícias da condenação serão mais profundas. Um crime, depressa,
que as leis humanas me precipitem no nada.
Cala-te, mas cala-te!... Esta é a vergonha, esta a repreensão: Satã que
diz que o fogo é ignóbil, que minha cólera é terrivelmente louca. -
Chega!... Segredam-me erros, magias, falsos perfumes, músicas
pueris. - E dizer-se que possuo a verdade, que vejo a justiça: tenho
um juízo são e firme, estou pronto para a perfeição... Orgulho. –
Seca-me a pele da cabeça. Piedade! Senhor, eu tenho medo. Tenho
sede, tanta sede! Ah! a infância, a erva, a chuva, o lago sobre as
pedras, a claridade da lua quando o campanário tocava meia-noite...
O diabo está no campanário, a esta hora. Maria! Virgem Santa!... -
Horror de minha idiotice.
Lá longe, não há almas honestas que me desejem o bem?... Vinde...
Tenho um travesseiro sobre a boca, não me ouvem, são fantasmas.
A1ém disso, que ninguém se aproxime. Cheiro a queimado, é certo.
As alucinaç5es são inumeráveis. É a que sempre tive: nenhuma fé na
história, esquecimento dos princípios. Calar-me-ei; poetas e
visionários sentiriam ciúmes. Sou mil vezes mais rico, sejamos
avaros como o mar.
Ah! o relógio da vida parou neste instante. Já não estou no mundo. -
A teologia é séria, o inferno está sem dúvida em baixo - e o céu no
alto. - Êxtase, pesadelo, sonho em meio a um ninho de labaredas.
Quanta malícia na atenção no campo... Satã, Ferdinando, corre com
os grãos selvagens... Jesus caminha sobre sarças ardentes, sem
dobrá-las... Jesus caminhava sobre as águas revoltas. A lanterna nolo
mostrou de pé, branco e as tranças negras, sobre uma onda de
esmeralda...
Vou desvendar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais,
morte, nascimento, futuro, passado, cosmogonia, o nada. Sou mestre
em fantasmagorias.
Escutai!
Possuo todos os talentos. - Aqui não há nada e há alguém: não
quisera desperdiçar o meu tesouro. - Desejais que eu desapareça, que
mergulhe à procura do anel? Desejais? Fabricarei ouro, remédios.
Confiai em mim, a fé conforta, guia, cura. Vinde todos, - até as
criancinhas, - para que vos console, para que vos prodigue o seu
coração. - O coração maravilhoso! - Pobres homens, trabalhadores!
Não peço. orações; serei feliz apenas com vossa confiança.
- E pensemos em mim. Isto me faz ter raras saudades do mundo.
Minha vida foi somente doces loucuras, é lamentável.
Bah! façamos todas as caretas imagináveis.
Decididamente, estamos fora do mundo. Já não há ruídos.
Desapareceu-me o tato. Ah! meu castelo, minha Saxônia, meu
bosque de salgueiros. As tardes, as manhãs, as noites, os dias ...
Estou exausto!
Deveria ter o meu inferno pela cólera, meu inferno pelo orgulho, - e
o inferno da preguiça; um concerto de infernos.
Morro. de cansaço. É o túmulo, vou para os vermes, horror de
horrores! Satã, farsante, queres disso1ver-me com teus feitiços?
Exijo. Exijo! um golpe de tridente, uma gota de fogo.
Ah, sair de novo para a vida! Contemplar nossos aleijões! E esse
veneno, esse beijo mil vezes maldito! Minha fraqueza, a crueldade
do mundo! Deus meu, piedade, esconde-me, estou doente! - Estou
escondido e ao mesmo tempo não o estou.
É o fogo que se 1evanta com o seu condenado.
Delírios
I
Virgem louca
O esposo infernal
Ouçamos a confissão de um Companheiro do inferno:
"Ó divino Esposo, meu Senhor, não repilas a confissão da mais
triste de tuas servas. Estou perdida. Estou bêbada. Estou impura.
Que vida!"
"Perdão, divino Senhor, perdão! Ah! perdão! Quantas lágrimas! E
quantas lágrimas ainda espero!"
"Mais tarde, conhecerei o divino Esposo!
Nasci submissa a Ele! - O outro pode bater-me agora!"
"No momento, estou no fundo do mundo, ó minhas amigas!.. não,
não sois minhas amigas... Jamais delírios nem torturas semelhantes...
É idiota:"
"Ah! sofro, grito. Sofro de verdade. Porém tudo me é permitido,
carregada de desprezo dos mais desprezíveis corações".
"Enfim, façamos esta confidência, com a reserva de repeti-la vinte
vezes ainda, - tão morta, tão insignificante!"
"Sou escrava do Esposo infernal, aquele que perdeu as virgens
loucas. É esse demônio mesmo. Não é um espectro, não é um
fantasma, Mas a mim, que perdi a sabedoria, que estou condenada e
morta no mundo, - não me matarão! Como vo-lo descrever! Já nem
mesmo sei falar. Estou de luto, choro, tenho medo. Um pouco de ar,
Senhor, se assim o desejas!"
"Estou viúva...- Estava viúva...- Sim, fui muito honesta antigamente
e não nasci para tornar-me esqueleto!... - Ele era quase uma
criança... Seduziram-me as suas misteriosas delicadezas. Esqueci
todo o meu dever humano para segui-lo. Que vida! A verdadeira
vida está ausente. Não estamos no mundo. Vou aonde vai ele, é
preciso. E com freqüência ele se encoleriza contra mim, contra mim,
a pobre alma. O Demônio! - É um demônio, vós o sabeis, não é
um homem".
"Ele diz: "Não amo as mulheres: sabemos que o amor está por ser
reinventado. Já não podem desejar senão uma posição segura.
Alcançada, o coração e a beleza são postos à margem: não resta
senão álgido desdém, o alimento do casamento, hoje, Ou então vejo
mulheres, com os sinais da felicidade, mulheres das quais eu poderia
fazer boas amigas, devoradas por brutos desde o primeiro momento
sensíveis como fogueiras"...
"Ouço-o fazer da infâmia uma glória, da crueldade um encanto". Eu
sou da raça antiga: meus pais eram escandinavos: traspassavam-se
as costelas, bebiam o próprio sangue. - Ferirei todo o meu corpo,
tatuar-me-ei, quero ser horrível como um mongol: verás, urrarei em
plena rua. Quero ficar louco de raiva. Nunca me mostres jóias:
arrastar-me-ia e me contorceria sobre a relva. Minha riqueza,
quisera-a toda enodoada de sangue. Nunca hei de trabalhar..." Certas
noites, seu demônio apoderando-se de mim, nós rodávamos, eu
lutava com ele! - Às noites, freqüentemente bêbado, escondia-se nas
ruas ou nas casas para assustar-me mortalmente. - "Cortar-me-ão na
verdade o pescoço; será asqueroso". Oh! esses dias em que ele quer
caminhar com aspecto de crime!"
"Algumas vezes fala, numa espécie de patoá enternecido que traz o
arrependimento, dos infelizes que certamente existem, dos trabalhos
penosos, das partidas que despedaçam os corações. Nas tascas em
que nos embriagávamos, punha-se a chorar ao pensar nos que nos
rodeiam, rebanho da miséria. Erguia os bêbados nas negras ruas.
Tinha piedade de uma mãe perversa para com os filhinhos. -
Portava-se com uma graça de menina, a caminho do catecismo. -
Afetava tudo saber: comércio, arte, medicina. - Eu o seguia, era
preciso!
"Eu via toda a decoração de que, em espírito, ele se rodeava;
vestidos, panos, móveis: eu lhe emprestava armas, outro rosto. Eu
via tudo o que lhe interessava, como ele quisera criá-lo para si
próprio. Quando me parecia que seu espírito estava inerte, eu o
acompanha, por mim mesmo, em ações estranhas e complicadas,
longe, boas ou más: estava perfeitamente segura de que nunca
penetraria em seus mundo. Ao lado de seu corpo amado adormecido,
quantas horas da noite não velei, perguntando-me porque tanto
porfiava ele em evadir-se da realidade. Jamais homem algum fez tal
voto. Advertia-me, - sem temer por ele - de que bem podia ser um
grave perigo para a sociedade. - Acaso possuirá segredos para
transformar a vida? Não, não faz mais que procurá-los, respondia a
mim mesmo. Sua caridade está enfeitiçada e retém-me prisioneira.
Nenhuma outra alma a não ser a minha teria bastante força - força de
desespero! - para suportá-la, para ser protegida e amada por ele.
Além disso, não o imaginava com outra alma: vê-se seu Anjo, nunca
o Anjo de nenhum outro, creio eu. Eu habitava em sua alma como
em um palácio que se desocupou para não se ver nele uma pessoa
menos nobre que vós: eis tudo. Ai! eu dependia por completo dele.
Mas, que queria ele de minha existência opaca e covarde? Não me
tornava melhor, se não me fazia morrer! Tristemente despeitada, eu
lhe disse algumas vezes:
"Compreendo-te". Ele dava de ombros.
"Assim, como renovasse sem cessar meu sofrimento, e sentindo-me
a meus próprios olhos ainda mais perdida, - como diante de todos os
olhos que quisessem contemplar-me se não estivesse condenada para
sempre ao esquecimento de todos - aumentava cada vez mais minha
fome de sua bondade. Seus beijos e abraços eram um céu, um
sombrio céu no qual eu entrava, e no qual desejaria que me
abandonasse, pobre, surda, muda, cega. Eu começava a habituar-me.
Considerava que éramos duas crianças boas; livres para passear no
Paraíso da tristeza. Compreendíamo-nos. Comovidos, trabalhávamos
juntos. Mas, após uma penetrante carícia, ele observava: Quando eu
me for, que estranho te parecerá tudo porque tens passado. Quando
já não tenhas meus braços em torno de teu pescoço, mas meu
coração para reclinar-te, nem esta boca sobre teus olhos. Porque um
dia terei que partir para muito longe. Além disso, tenho que ajudar a
outros: é meu dever. Ainda que isso não seja lá muito agradável...
amada criatura". Imediatamente eu o imaginava distante, e me sentia
presa de vertigem, relegada à mais espantosa das sombras: a morte.
Obrigava-o prometer que não me abandonaria. Vinte vezes me fez
essa promessa de amante. Era tão frívolo quanto eu, quando lhe
dizia:
"Compreendo-te".
"Ah! Jamais tive ciúmes dele. Não me abandonarás, creio. Que
faria? Não possui conhecimentos, nunca trabalhará. Quer viver
sonâmbulo. Bastaria a sua bondade e caridade para dar-lhe direito no
mundo real? Por um instante, esqueço o estado lastimoso em que
caí: ele far-me-á forte, viajaremos, caçaremos nos desertos,
dormiremos sobre o empedrado de cidades desconhecidas, sem
auxílios, sem queixa. Ou ao despertar, as leis e os costumes terão
mudado, - graças a seu mágico poder; ou o mundo, permanecendo
igual, abandonar-me-á a meus desejos, a minhas alegrias, a minhas
indolências. Oh! Dar-me-ás a vida de aventuras que existe nos livros
infantis a fim de me recompensar de quanto tenho sofrido? Não
posso. Ignoro meu ideal. Declara-me que sente remorsos, que tem
esperanças: isto não deve importar-me. Fala com Deus? Talvez
devesse eu mesma dirigir-me a Deus. Estou no mais profundo
abismo, e não sei mais rezar".
"Se me explicasse suas tristezas, compreende-las-ia melhor que suas
zombarias? Ele me ataca, durante horas a fio me humilha por tudo
que me tem comovido no mundo, e fica furioso se me ponho a
chorar".
“- Estás vendo este elegante jovem que entra numa bela e tranqüila
residência? Chama-se Duval, Dufor, Armando, Maurício, que sei
eu? Uma mulher decidiu-se a amar este perverso idiota: está morta;
certo é agora uma santa, no céu. Causarás a minha morte como ele
causou a dessa mulher. É nosso destino, o dos corações caridosos..,"
Ai! dias havia em que os homens afiguravam-se-lhe joguetes de
delírios grotescos; punham-se a rir horrivelmente, por muito tempo.
- Depois recuperava seus modos de jovem mãe, de irmã mais velha.
Se fosse menos selvagem, estaríamos salvos! Mas também sua
doçura é mortal. Estou submetida a ele. - Ah! Estou louca!".
"Um dia, talvez, desaparecerá maravilhosamente; mas preciso saber
se voará para algum céu, para que eu veja, ainda que por um pouco,
a assunção de meu amiguinho".
Que casal risível!
Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, segundo á esquerda (20 de outubro de 1854, Charleville – 10 de novembro de 1891, Marselha) ao lado de Paul Verlaine
Delírios
II
Alquimia do Verbo
Para mim. A história de uma de minhas loucuras.
De há muito, eu me vangloriava de possuir todas as paisagens
possíveis, e achava irrisórias as celebridades da pintura e da poesia
modernas.
Extasiava-me diante de pinturas idiotas; portais, decorações. telas de
saltimbancos, desenhos, estampas populares; literatura fora de moda,
latim de igreja, livros eróticos sem ortografia, romances de nossos
avós, contos de fadas, livros infantis, velhas óperas, ditados tolos,
ritmos ingênuos.
Sonhava cruzadas, viagens de descobertas, das quais não existem
noticias, repúblicas sem história, guerras de religião sufocadas,
revolução de costumes, deslocamento de raças e continentes:
acreditava em tudo quanto era encantamento.
Inventei a cor das vogais! - A negro, E branco, I vermelho, O azul,
U verde. - Regulei a forma e o movimento de cada consoante, e me
vangloriei de inventar, com ritmos instintivos, um verbo poético
acessível, algum dia, a todos os sentidos. Eu me reservava a sua
tradução.
De início foi apenas um estudo. Escrevia os silêncios, as noites;
anotava o inexprimível. Fixava as vertigens.
***
Longe dos pássaros, dos rebanhos, dos camponeses,
Que bebia eu, joelhos em terra, naquela mata
Rodeada de ternos bosques de aveleiras,
Numa tênue e verde bruma, ao meio-dia?
Que podia beber neste jovem Oise,
-- Olmos sem voz, relva sem flores, céu aberto! -
Que podia beber nessas amareladas cabaças, longe. de
[minha choupana
Querida? Um licor de ouro que faz transpirar?
Eu era como um torpe emblema de hospedaria.
-- Uma tempestade desterrou o céu. Dentro da noite
A água dos bosques perdia-se entre as areias virgens,
O vento de Deus lançava pedras de gelo sobre os
[charcos;
Soluçando, eu contemplava ouro - e não pude beber.
***
Às quatro da manhã, no verão,
O amoroso cansaço dura ainda.
Sob os pequenos bosques se evola
O perfume da noite de festa.
Ao longe, na ampla oficina,
Ao sol das Hespérides,
Já se agitam - em mangas de camisa -
Os Carpinteiros.
Em seus Desertos de musgo, tranqüilos,
Trabalham preciosos lambris
Nos quais a cidade.
Pintará falsos céus.
Oh, por estes Obreiros, encantadores
Súditos de um rei da Babilônia,
Abandona um instante, ó Vênus,
Os Amantes de alma coroada!
Ó Rainha dos Pastores,
Leva aos trabalhadores a aguardente
Que lhes retempere as forças
***
A velha poesia tinha boa parte na minha alquimia do verbo.
Habituei-me à alucinação simples: via com toda a sinceridade uma
mesquita em lugar de uma fábrica, uma escola d tambores com anjos
por discípulos, caleches nas estradas do céu, um salão no fundo de
um lago; os monstros, os mistérios; um título de vaudeville
provocava terrores a meus olhos.
Depois expliquei os meus sofismas mágicos com a alucinação das
palavras!
Acabei considerando sagrada a desordem de meu espírito. Ocioso,
vítima de acabrunhante febre, invejava a felicidade dos animais - as
lagartas, que representam a inocência dos limbos, as toupeiras, o
sono da virgindade!
Meu caráter azedava-se. Despedia-me do mundo numa espécie de
romances
continua...
continua...
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Uma Temporada no Inferno - Rimbaud
Arthur Rimbaud
Foi viajando no som dos The Doors, ainda meio garoto e interessado em toda aquela literatura em torno das letras místicas de Jim Morrison, que acabei por esbarrar, entre outros vários, com o maior dos poetas. Arthur Rimbaud, responsável por inaugurar a poesia simbolista do século XIX, o primeiro movimento literário propriamente modernista que se tem registro. Entretanto, não há muito que eu possa acrescentar aqui que já não foi dito, escrito e revisado.
Considerado um dos mais surpreendente gênios precoces da literatura, Rimbaud foi, acima de tudo, um talento rebelde contra o conservadorismo de sua época, renegou a religião, os modelos sociais burgueses, a linguagem poética vigente, e por fim a própria atividade artística. Aos 20 anos iniciou um silêncio emblemático que duraria toda sua vida.
Publicarei “Uma Temporada no Inferno” de 1873, pioneira prosa simbolista, dividida em três partes.
Uma Temporada no Inferno
( Une Saison en Enfer)-Arthur Rimbaud
Tradução de Paulo Hecker Filho
Antigamente, se bem me lembro, minha vida era um festim no qual todos os
corações exultavam, no qual corriam todos os vinhos.
Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos. - E achei-a amarga. - E injuriei-a.
Armei-me contra a justiça.
Fugi. Ó feiticeiras. ó miséria, ó ódio, a vós é que foi confiado o meu tesouro!
Tudo fiz para que se desvanecesse em meu espírito a esperança humana.
Como um animal feroz, investi cegamente contra a alegria para estrangulá-la
Conjurei os verdugos para morder, na minha agonia, a culatra de seus fuzis.
Conjurei as pragas, para afogar-me na areia, no sangue. Fiz da desgraça a
minha divindade. Refocilei na lama. Enxuguei-me ao ar do crime. E preguei
boas peças à loucura.
E a primavera trouxe-me o horrível gargalhar do idiota. Ora, por último,
chegando a ponto de quase fazer o trejeito final, sonhei encontrar a chave do
festim antigo, no qual talvez recobraria o apetite.
A caridade é essa chave. - Esta inspiração prova que tenho sonhado!
"Sempre serás hiena, etc..." exclama o demônio que me coroou de tão amáveis
papoulas. "Vence a morte com todos os teus apetites, com todo o teu egoísmo
e todos os pecados capitais".
Ah! estou farto de tudo isso: - Mas, querido Satã, eu te conjuro a que não me
fites com pupila tão irritada! e à espera das pequenas covardias atrasadas, para
vós outros que admirais no escritor a ausência das faculdades descritivas ou
pedagógicas, para vós arranco algumas hediondas páginas do meu caderno de
condenado.
Mau Sangue
Herdo de meus antepassados, os gauleses, os olhos azuis-claros, a
fronte estreita, e a falta de jeito para a luta. Sinto que minhas roupas
são tão bárbaras quanto as deles. Apenas não unto a cabeleira.
Os Gauleses foram esfoladores de animais, queimadores de ervas, os
mais inábeis de seu tempo.
Deles, eu herdo: a idolatria e o amor ao sacrilégio; - oh! todos os
vícios: cólera, luxúria, - magnífica, a luxúria; - sobretudo mentira e
preguiça.
Detesto todas as profissões. Mestres e oficiais, todos campônios,
ignaros. A mão que empunha a pena equivale à que guia o arado. -
Que século de mãos! - Jamais me servirei das mãos! Depois, a
domesticidade leva demasiado longe. A honradez da mendicidade
exaspera-me. Os criminosos repugnam-me como castrados: quanto a
mim, estou intacto, e pouco se me dá.
Mas quem fez tão pérfida a minha língua que, até agora, tem guiado
e protegido a minha preguiça? Sem saber utilizar-me do corpo, e
mais ocioso que um sapo, tenho vivido por toda a parte. Não há
família na Europa que eu não conheça: - Estou falando de famílias
iguais à minha, que devem tudo à declaração dos Direitos do
Homem – Tenho conhecido cada filho-família!
***
Se possuísse antecedentes em um ponto qualquer da história de
França!
Mas não, nada.
Não ignoro que fui sempre de raça inferior. Não posso compreender
a revolta. Minha raça só se rebelará para saquear: como os lobos ao
animal que não mataram.
Recordo a história de França, filha primogênita da Igreja. Aldeão,
teria empreendido viagem à Terra Santa; vejo em pensamento
caminhos nas planícies suábias, panoramas de Bizâncio, muralhas de
Jerusalém: o culto de Maria, o enternecimento para com o
crucificado despertam em mim entre mil fantasias profanas. - Estou
sentado, leproso, sobre cacos de vasos e urtigas, junto a um muro
roído pelo sol. – Mais tarde, lansquenete, bivacaria sob as noites de
Alemanha.
Ah! mais ainda: danço o sabá numa incendiada clareira, com velhas
e crianças.
Minhas lembranças detêm-se nessa terra e no cristianismo. Ver-meei
sempre nesse passado. Mas sempre sozinho; sem família; e, além
disso, que língua falarei? jamais me surpreendo nos concílios de
Cristo ou nos concílios dos Senhores, - representantes de Cristo.
Que era eu no século passado: só hoje torno a encontrar-me.
Acabaram-se os vagabundos, nada de guerras sem sentido. A raça
inferior cobriu tudo - o povo, como se diz, a razão; a nação, e a
ciência.
Oh! A ciência! Tudo se repete. Para o corpo e para a alma, - o
viático - temos a medicina e a filosofia, - os remédios das boas
mulheres e as canções populares apropriadas. E as distrações dos
príncipes e os jogos que eles interditam! Geografia, cosmografia,
mecânica, química ...
A ciência, a nova nobreza! O progresso. O mundo marcha. Por que
não havia de girar?
É a visão dos números. Vamos pata o Espírito. É certíssimo, este
oráculo, que eu faço. Compreendo, e não sabendo explicar-me sem
palavras pagãs, preferiria silenciar.
***
Retorna o sangue pagão! O Espírito está próximo; por que Cristo
não me ajuda, dando à minha alma nobreza e liberdade? Ai, o
Evangelho morreu. O Evangelho! O Evangelho.
Espero Deus avidamente. Sou de raça inferior por toda a eternidade.
Estou na praia armoricana. Que as cidades se iluminem à noite.
Minha jornada está realizada; abandono a Europa. A aragem
marinha queimar-me-á os pulmões; os climas perdidos tostar-me-ão.
Nadar, mordiscar ervas, caçar, fumar, sobretudo; beber licores fortes
como chumbo derretido, - qual faziam esses queridos antepassados
em volta do fogo
Retornarei com membros de aço, negra a epiderme, as pupilas
acesas: por minha máscara julgar-me-ão de um raça forte. Possuirei
ouro: serei ocioso e brutal. As mulheres cuidam destes ferozes
enfermos que regressam dos países quentes. Participarei dos
negócios políticos. Salvo.
Agora estou amaldiçoado, horroriza-me a pátria. O melhor é um
sono, completamente bêbado, na praia.
***
Ninguém parte. – Percorramos novamente os caminhos daqui,
carregado de meu vício que aprofundou sua raízes de sofrimento a
meu lado, desde a idade da razão, - que sobe ao céu, me golpeia,
derruba, arrasta.
A derradeira inocência e a derradeira timidez. Está dito. Não
entregar ao mundo meus desgostos e minhas traições.
Vamos! A marcha, o fardo, o deserto, o tédio e a cólera.
A quem me alugar? Que besta é preciso adorar? Que santa imagem
atacar? Que corações destruirei? Que mentira devo sustentar? Sobre
que sangue caminhar?
Mas, é melhor evitar a justiça. – A vida dura, o simples
embrutecimento, - levantar, o punho seco, a tampa do caixão, sentar-se,
afogar. Assim desaparecem a velhice e os perigos: o terror não é
francês.
Ah! Sinto-me tão abandonado que estou oferecendo a qualquer
divina imagem – impulsos para a perfeição.
Ó minha abnegação, ó maravilhosa caridade! aqui em baixo,
embora!
De profundis, Domine, que estúpido sou!
***
Menino, eu admirava o presidiário intratável sobre quem se fecha
sempre a porta da prisão; visitava os albergues e as pousadas que ele
havia santificado com sua passagem; via com sua idéia o céu azul e
o trabalho florido do campo; pressentia sua fatalidade nas cidades.
Era mais forte que um santo, tinha mais bom-senso que um viajante,
- e ele, só ele! Como testemunho de sua glória e de sua razão.
Nas estradas, nas noites de inverno, sem teto, sem roupa, sem pão,
uma voz oprimia meu coração gelado: "Fraqueza ou força: repara, é
a força. Não sabes para onde vais, nem porque vais, entra por toda a
parte, responde a tudo. Não lograrão matar-te a menos que já sejas
um cadáver". Pela manhã tinha o olhar tão perdido e o aspecto tão
morto, que aqueles que me encontravam possivelmente não me
viam.
Nas cidades, a lama parecia-me de súbito vermelha e negra, como
um espelho quando a lâmpada circula na peça contígua, como um
tesouro na floresta! Boa sorte, exclamava eu, e via um mar de
labaredas e fumaça no céu, e, à esquerda, à direita, todas as riquezas
ardendo como um milhar de relâmpagos.
Mas a orgia e a camaradagem das mulheres me estavam proibidas.
Nem ao menos um companheiro. Via-me diante de uma multidão
exasperada, em frente ao pelotão de fuzilamento, chorando a
desgraça de que não houvessem podido compreender, e perdoando!
– Como Joana d'Arc! - "Sacerdotes, professores, mestres, vós vos
enganais entregando-me à Justiça. Jamais pertenci a este povo daqui
de baixo; jamais fui cristão; eu pertenço à raça que cantava no
suplício; não compreendo as leis; não tenho senso moral; sou um
bruto: vós vos enganais".
Sim, tenho os olhos cerrados para a vossa luz. Sou uma, um negro.
Contudo posso salvar-me. Vós sois falsos negros; vós, maníacos,
ferozes, avarentos. Mercador, tu és negro; magistrado, tu és negro;
general, tu és negro; imperador, velho prurido, tu és negro; tu
bebeste um licor não selado, da fábrica de Satã. – Este povo está
inspirado pela febre e pelo câncer. Mutilados e velhos são de tal
modo respeitáveis que pedem que os cozinhem. – O mais sábio é
abandonar este continente, onde ronda a loucura para prover de
reféns estes miseráveis. Entro no verdadeiro reino dos filhos de Can.
Conheço ao menos a natureza? Conheço-me a mim próprio? – Basta
de palavras. Sepulto os mortos em meu ventre. Gritos, tambor,
dança, dança, dança, dança! Nem sequer considero que ao
desembarcarem os brancos, cairei no nada.
Fome sede, grito, dança, dança, dança, dança!
***
Os brancos desembarcam. O canhão! É preciso submeter-se ao
batismo, vestir-se, trabalhar.
Recebi no coração o toque da graça. Ah! Não o havia previsto!
Nunca pratiquei o mal. Os dias vão ser suaves, apagar-se-me-á o
remorso. Não terei suportado os tormentos da alma quase morta para
o bem, onde sobe a luz severa como os círios fúnebres. A sorte do
filho-família, esquife prematuro coberto de límpidas lágrimas. Certo,
a libertinagem é estúpida, o vício é estúpido; é preciso arrojar
distante a podridão. Mas o relógio nunca dará unicamente as horas
de dor! Vou ser raptado qual uma criança, para brincar no paraíso,
esquecido de todas as desgraças?
Depressa! há outras vidas? - O sono em meio às riquezas é
impossível. A riqueza foi sempre bem público. Só o amor divino
outorga as chaves da ciência. Vejo que a natureza não é senão um
espetáculo de bondade. Adeus quimeras, ideais, erros!
O canto razoável dos amigos eleva-se do navio salvador: é o amor
divino. - Dois amores! Posso morrer de amor terrestre, morrer de
sacrifício. Deixei almas cuja pena crescerá com minha partida!
Escolheste-me entre náufragos; os que ficam são meus amigos?
Salvei-os!
Despertou-me a razão. O mundo é bom. Abençoarei a vida. Amarei
meus irmãos. Não são promessas infantis. Nem esperança de escapar
à velhice e à morte. Deus me dá força e eu louvo a Deus.
***
O tédio já não é o meu amor. As cóleras, a libertinagem, a loucura, -
dos quais conheço todos os impulsos e todas as conseqüências - todo
o meu fardo está deposto. Apreciemos sem vertigem a extensão de
minha inocência.
Já não serei capaz de implorar o consolo de uma bastonada. Não me
acredito a caminha de umas núpcias com Jesus Cristo por sogro.
Não sou prisioneiro de minha razão. Disse: Deus. Quero a liberdade
na salvação: como alcançá-la? Os gostos fúteis abandonaram-me. Já
não preciso de sacrifícios nem de amor divino. Não tenho saudades
do século dos corações sensíveis. Cada um tem sua razão, desprezo
e caridade: retenho meu lugar no alto desta angélica escala de bomsenso.
Quanto à felicidade estabelecida, doméstica ou não... não, não
posso. Estou demasiado gasto, demasiado débil. A vida floresce pelo
trabalho, velha verdade: quanto a mim, minha vida não é
suficientemente pesada, voa e flutua distante, por cima da ação, esse
adorado eixo do mundo.
Como me sinto solteirona, falto de coragem para amar a morte.
Se Deus me concedesse a calma celeste, aérea, a oração, - como os
antigos santos -. Os santos! os fortes! os anacoretas, os artistas tais
quais já não precisamos.
Farsa contínua.! Minha inocência me faria chorar. A vida é a farsa
que todos têm que representar.
***
Basta! eis a punição. - Em marcha!
Ah! queimam os pulmões, latejam as têmporas! A noite tomba em
meus olhos, em pleno sol! O coração... os membros...
Aonde vamos? ao combate? Sou fraco! os outros avançam. Os
ferros, as armas... o tempo !...
Fogo! Fogo sobre mim! Lá! para onde me dirijo. - Covardes - Matome!
Arrojo-me entre as patas dos cavalos!
- Habituar-me-ei a isso.
Esta seria a vida francesa, o caminho da honra!
continua...
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